domingo, 21 de fevereiro de 2010

Ao Meu Amor


Imagem: Jana Magalhães.


Olho pra você
E a verdade é quem me responde pronta.

Foi no nosso dia-a-dia
Que fiz crescer minhas raízes:
No som inaudível
Dos seus passos rápidos pela casa,
Sempre retornando para mim;
Na sua voz mansa, doce,
Me dizendo sempre tão pouco;
No seu olhar risonho,
Me revelando sempre tanto;
No seu abraço quente,
Que é a minha morada verdadeira...

Olho pra você,
E observo sua serenidade infinita;
A beleza de você dormindo
Sendo superada pela grandeza
Do seu despertar...

E redescubro todos os dias,
Entre seus beijos e carinhos tão naturais,
As certezas mais bonitas;

E você desvenda pra mim,
Entre nossos elos mais triviais,
O real fundamento da minha vida.

Consolo da Lua


Imagem: A Lua - Tarsila do Amaral.


Vaga triste a Lua branca
E eu sentada na calçada...

Aqui sozinha não penso em nada.
Não me basta o acalanto
De te ter no pensamento...

Vaga e voa com o vento
Turvo e triste o desalento
De te ter sem te sentir.

Mata aos poucos o porvir...

Enxergar a minha vida
Sem teu corpo, tua guarida
Teu olhar e teu sorrir...

Mas é morno o sofrimento.

Se não estás aqui, em tempo,
Me consola a Lua branca,
A luzir no firmamento...

A lembrar que a paz que surge,
De cada amor que a gente cura,
É amiga, mãe, irmã e filha
Do tempo.

Torto do Meu Jeito


Imagem: Ann Tarantino.

Eu não sei fazer cubos perfeitos.
Nem laços perfeitos.
Nem flores perfeitas.

Eu não sei fazer nada direito.

Mas insisto,
E persisto
Na boa hora de ajeitar o traço,
De apertar o laço.
De pintar a flor.

Deve ser coisa do acaso
Deve ser caso de quem é torto
De dentro;

Eu que não acerto um passo,
Eu que não entendo como
Endireitar meu pensamento.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Trabalho de Parto


Agora eu tento me despir da covardia, de toda esta pegajosa, dura e espessa crosta de covardia que me envolve, e tento falar lá de dentro de mim, muito do fundo, de dentro de todo o escuro, até, eu diria.

E tento dizer que existe mais. Que existe ainda mais para relatar, nesta bagunça quase irreversível, neste meu porão em que as vivências se confundem e se perdem, empoeiradas e abandonadas como se nunca tivessem um dia tido vida.

E tento expurgar. Meu deus, mas que força é pra botar pra fora aquilo que é somente meu e eu. Que dor infinda essa de trazer à tona aquilo que por dentro, instintivamente, eu conheço tão bem, e no entanto não explico , não traduzo, não decifro... Eu me calo e sinto, com a dor maior de ainda assim saber que o que sei e sinto jamais será de alguém além de meu, porque me faltou ao nascer a delicadeza e a generosidade para com as palavras que resgatam essas coisas mais íntimas.

Mas posso afirmar que existe mais. Que posso ser tudo nessa vida, menos rasa. Eu não sou dessas águas que se tingem de negras para parecerem mais profundas. E a reclamação vem toda de não saber onde fica o fundo, e de ter tanto medo dele que me acostumei a nadar segura pela superfície.

Só que agora ponho abaixo, por menor conforto e maior confronto que me cause, tudo aquilo que não for verdade. E a verdade sempre resguarda incompreensível simplicidade. A minha verdade maior sou eu, mesmo que me falte o refinamento ao relatar... Ser você mesmo é o que há de mais aterrorizante e desafiador. Mas é também que é coisa mais original que se pode ser, e por isso todos os aplausos àqueles que assumiram o ônus e a beleza de serem honestos consigo mesmos.

Ainda que existam as pessoas que em mim se fizeram e far-se-ão ao longo da minha vida. É bem sabido que a própria verdade é sujeita aos momentos e às circunstâncias, e que a gente deixa de acreditar e volta a acreditar em muitas coisas até que outras novas nos sejam apresentadas. Mas o mais importante de tudo é o compromisso ético de ser verdadeiro com você, no aqui e agora, e em todos os dias que vierem. De se tocar e se enxergar pra se sentir, e vice-versa.
É assim que a gente se descobre, é se analisando que a gente se entende. E nada disso é fácil, porque já existe aos montes no mercado opiniões, atitudes e pessoas prontas para incorporarmos, algumas a preços irrisórios e valendo muito menos ainda.

Me invade agressiva a urgência de ficar nua. De tudo e todos. Eu quero a solidão, a dor e o erro me ensinando e me emprenhando de mim, até que eu possa me parir madura e com os olhos devidamente abertos para o mundo.

Viver, amar, escrever, dói. Caio e Clarice tinham toda a razão. Mas nada pode custar mais ao meu espírito atordoado e estupefato pela vida que o hipócrita e mórbido silêncio da covardia, da auto-negação.

Muito antes aceitar o carma de ser eu mesma e sangrar todos os dias, a passar morta a vida inteira.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Eterno Retorno


Logo-logo estou de volta,
Pra você
Que não está nem aí.

Tão logo começo a falar
E você se põe a dormir.

Daqui a pouco estou chegando,
Pra não ter nenhuma atenção;
Pra te ver me negando as migalhas
Que te sobram do coração;

E não tem jeito...

É como se eu
Não pudesse pensar direito,
E insistisse
No que nunca existiu;

O pouco que tive,
A muito partiu;
Sem rumo, nem chance,
Nem retorno;

E fico eu nessa volta sem fim,
Querendo mostrar
Que com você é que quero ficar...

Mesmo se for
Pra errar tudo de novo.

Caminha(dor)


Deixa ele seguir caminho
Com o cachorro e o Sol
E de mãos com a solidão

Deixa ele parar
Na beira da estrada
E olhar perdido pra nada
Que guarda como recordação

Deixa ele passar
O frio que se passa
Quando não se tem amor
Nem coração

E subir exausto
De carona
Na boléia da dor
Ou do caminhão

Sabe que ele vai fugir
O quanto puder
E é isso que você quer
Que esqueça a sua direção

Mas que leve marcado em sua história
No peito, no braço e na memória
Seu nome, riso, fogo...
E aquela canção.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Desvairada (Música)


Um dos presentes mais lindos que ganhei este ano.
Música feita pra mim, por meu querido Tiago Quevedo, cuja amizade também foi um dos grandes presentes que ganhei... da vida.


Desvairada
(Tiago Quevedo/Daniel Mondego)

Esse som é meu refúgio
E as notas me inebriam
No olhar da contramão
Eu enfrento a multidão

Sou apenas existência
Um poema uma canção
Sou a arte em sua essência
E as vezes solidão

No meu modo eu resisti
Sou quem sou e o que vivi

Encantada como um anjo
Desvairada me arranjo
Mas nas notas do meu canto
Só eu sei o que senti

Enfrentando meus anseios
Relutei em prosseguir
Mas meu vôo é do meu jeito
E pressinto conseguir

Eu só acredito em mim
Desvairada sou assim...

E a todos que amam
Me julguem por quem sou
A liberdade nunca é em vão.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Les Ami



Quase me faz chorar
Muito da sua maneira:
Uma mistura de doce com amargo,
Colherzinha de café numa xícara de açúcar.

Pra casa volto sentindo o vento
Me batendo no rosto
Implorando pra que eu a esqueça,
Me alertando antes que eu enlouqueça;

É que ela é a mulher dos meus sonhos,
Em timbre, cor, tamanho e delicadeza.
E em minhas mãos ela encaixa tão bem,
Que chego a pensar serem só minhas
Todas as harmonias que ela sozinha detém;

E quando ela se vai,
Me deixando numa saudade eterna,
Buscando vestígios de seu cheiro,
Abraço a parte que dela me resta;

E fechando meus olhos acordado,
Cuidadosa, meiga, incerta...
Eu a posso ver clara,
Iluminando minha noite deserta.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Pueril

Imagens: Ionit Zilmerman.


Envelhecer?!
Mas quando??
Ainda que me esforçasse para tanto...
A gente não vive tempo suficiente
Neste mundo
Para deixarmos de ser crianças.


sábado, 31 de outubro de 2009

Coisas estranhas ao seu lado

Ilustração: Ionit Zilberman.


Eu sinto coisas estranhas por você. Nunca senti igual por ninguém, e por isso mesmo chamo de coisas estranhas.
Eu não te amo, definitivamente. Não imagino nossos sobrenomes misturados, filhos com você, nem qualquer vida possível ao seu lado. Nada disso. Não me interessa detalhes sua história, nem conhecer mais profundamente as pessoas que você é.
Mas você me dá coisas estranhas. Tipo vontades insanas, tipo correr perigo, fazer bobagem sabe? Você me causa esses troços todos. E me dá vontade de chorar quando simplesmente some, e de gritar quando, do nada, aparece. Eu não entendo.
Queria poder dizer claramente o que sinto e me libertar dessa mania infeliz que eu tenho de ser sempre tão comedida, e compassada, e cautelosa. Eu queria dizer assim, na tua cara, num desses momentos que a gente tivesse de bobeira, que você me desestrutura, rapaz.
É que toda vez depois de te ver eu fico rebobinando (porque eu sou do tempo das bobinas do vídeo-cassete) cada expressão, cada sorriso fácil seus, pra reviver aquilo que eu vivi ao seu lado, mas não estou afim de viver outra vez.
Sinto uma saudade fodida de você, mas não quero te ver nunca mais.
Porque do seu lado eu não sei quem sou. É isso. Eu queria dizer na tua cara, seu alienígena, que eu não quero mais saber de você, porque eu não consigo me reconhecer do seu lado, você me olha e eu me transformo numa criatura que nunca conheci antes, cheia de uma fragilidade irritante, como se você me quebrasse em pedacinhos e me juntasse com as partes todas fora do lugar e eu não soubesse o que fazer com elas.
E eu tenho medo de você e de tudo isso que ficar sob seu eixo me causa.
Nunca fui de me assustar com o que desconheço.
Mentira. Mentira deslavada, lorota boa essa minha. Eu sou mulher e trago o medo na bagagem do meu gênero, mas medo assim ainda não tinha sentido.
Não estou falando de medo terror não, é uma coisa muito mais sutil, como se fosse uma forma refinada de medo que, injetada na minha corrente sanguínea, me deixasse sempre num estado entre o surto e a tranquilidade. Constantemente em alerta, eu diria.
É que, eu não sei porque, mas com você eu sinto uma vontade incontrolável de viver tudo até o limite, do seu lado eu me sinto plenamente fora do juízo, fissurada nos segundos presentes, liberta dos acontecimentos ao redor.
E mais do que qualquer das outras, a coisa mais estranha que sinto é me satisfazer das lembranças de você... Só por não suportar o peso da felicidade quando estou ao seu lado.