sábado, 6 de novembro de 2010

Mensagem à dona do coração de ouro

Dum,
de todas nós, você sempre aparentava ser a mais frágil: sempre chorou mais fácil, sempre estorou mais cedo, sempre entendia as coisas por último.
Quando bebê, transitava pelos meios "undergrounds" da família, e nunca foi muito afeita a colos desconhecidos, nem pessoas de feições pouco aprazíveis. Era conhecida também por dar a pouquíssimos o raro prazer de vê-la sorrir seu sorriso desdentado e exagerado.
Você cresceu com a noção clara de quem era essencial em sua vida.
Durante sua vida escolar... Então né? Deixa isso pra lá. Ou não. Uma parte de sua vida escolar até hoje circula em sua volta. Porque você realmente sempre teve a clara noção do que era especial nessa vida.
Morando fora de casa, você se sentia perdida e era aplacada por inseguranças, e por diversas vezes temeu não ser capaz de conquistar os objetivos aos quais se propôs.
Mas uma coisa que aprendeu foi que sonhos não são bobagens, e a gente não veio pra essa vida para passar despercebido.

Dum...
de todas nós, você sempre foi a mais forte: nunca teve vergonha de chorar, sempre souber se defender (e nos defender), sempre foi muito responsável, organizada, e entendeu muito cedo que era grande demais pra se reduzir a seus medos e dificuldades.
Quando bebê, sempre se deu aos colos realmente seus, e se gabaritou em fazer dessas pessoas seres hoje completamente apaixonados por você, por seu jeito dedicado e estabanado de ser, pelo seu sorriso desdentado maravilhoso, que eles sabiam ser só deles.
Você cresceu e deixou todos com a noção clara de que era essencial em suas vidas.
Durante a sua vida escolar, você sempre buscou aplacar os obstáculos que lhe atravessaram à frente, e nunca se deixou abater por suas limitações. Além disso, descobriu pessoas (ou foi descoberta por elas?) que enxergaram seu incrível brilho. Estas pessoas até hoje são teus amigos, te amam, te admiram, e tem a clara noção do quanto você é especial para eles.
Morando fora de casa, você foi a pioneira. Você fez o que ninguém teve coragem de fazer, e hoje todos que podem seguem seu exemplo. A menininha que sempre entendia as piadas por último foi a primeira que entendeu que seguir os nossos sonhos é tarefa séria e inadiável.
Hoje você é protagonista da sua história, sabe o valor disso? Todas as suas conquistas vieram da sua capacidade de amar, de sonhar e de lutar. E você chegará aonde quiser, porque os seus sonhos precisam de você, você já foi escolhida por eles, assim como foi por todos nós, que te amamos desesperadamente. É só seguir em frente, e continuar ouvindo este que sempre foi seu maior mentor, e seu tesouro mais valioso: O SEU CORAÇÃO.

Neste dia, queriamos todas estar contigo, tu fazes falta em cada minuto que se passa. Mas é dia também de te AGRADECER por tudo que és, e festejar a tua existência que é essencial, especial e inestimável. Receba todo nosso carinho, amor e orgulho, neste teu coração de ouro. A gente te ama tanto que nem sabe dizer o quanto.

Saúde, paz e bem, nesta tua vida que está só começando e que florescerá imensamente, pois tu mereces!

PARABÉNS E FELIZ ANIVERSÁRIO, NOSSA DUM!!!!!!

Com:
todo amor de Nath, para você;
todo amor de Kel, para você;
todo amor maior de todo o mundo, de mamãe, para você!!!

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Sereno




Amor, eu me vou
Fica gasto aos pés do sereno
Que eu vou de ir

Minha vida há de seguir
No caminho há de florescer
Amor, o bom da vida
É só viver

E eu não vou reclamando
Do destino que não quis
Que este caso tivesse
Desfecho mais feliz

Vou chorar de saudade
Mas vai ficar na memória
Um sonho bonito de sonhar
Uma beleza de história

Você fica na soleira
Em pé no sereno
Que eu vou curar essa dor
Nos braços de outro moreno.


Nathalia Ferro.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Meu Jardim

...  Já observaste que todo poema tem um contorno?


É que já não me interesso mais
Pelo que é feito sem música nem sinceridade.
Não quero mais as coisas brandas, de cadência suave.
Atrai-me o frenético, o inconstante certo.
Tanta loucura só pode dar em solidão.
Não me acostumo mais a viver sem arder
E ainda rimando, repito: na confusão, encontro solução.
Toda sem eixo escrevo meus caminhos tortos.
Não me amedronta o erro, mas a inércia...
E tudo de mim, a esmo, não passa de um relato solto,
De um jardim plantado sob a sombra do tempo,
Regado a lágrimas, cujas flores sem cores
Pinto de sonhos, sentimentos, e tudo que invento
Para colher o que possa chamar de “vida”.

Nathalia Ferro.


Metrô

Descompasso, contra o passo
Todos são no turbilhão
Desconexos, incompletos
Peixes sós na confusão

Pantelmintos no labirinto
Nas certezas de ilusão
São castelos, fortalezas
São reféns da solidão

Tanto indo quanto vindo
Rumo a toda direção
São vulgares, são lugares
Aonde sonhos nunca vão

São prelúdios absurdos
Nunca aos pares, nunca irmãos
Tão confuso é o fuso
No pulsar da multidão.

Nathalia Ferro.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

CARTA AOS ARTISTAS

O artista jamais pode deixar calar em seu peito a voz dos excluídos. Jamais.
Não pode deixar calar a voz dos que tem fome de comida e justiça, a voz de todos os livros não lidos pelas crianças sem escola, e pelos adultos iletrados.
Porque o peito do artista pulsa levando consigo o eco das multidões.  E é preciso que ele tenha sempre os sentidos atentos a estes clamores, que não os deixe de mão, por serem repetitivos e doloridos demais.
Sabe-se que os tempos são de acomodação, preguiça e desesperança. Sabe-se que hoje em dia as pessoas tem tanto medo de perderem suas situações arranjadas, como antes tinham de serem torturadas pela ditadura.
Mas é preciso que se diga: um povo ignorante, com viseiras nos olhos e adestrado economicamente por medidas assistencialistas não tem capacidade de consumir arte crítica e de qualidade.
Façamos então por nós mesmos, nós, artistas. Nós, que valorizamos nossas mentes e almas, que temos nossa expressão como riqueza maior. Ouçamos em nosso peito também a nossa própria voz que clama por atitude, posicionamento, coragem e esclarecimento, pois faz parte de nossa função, para que sejamos ouvidos e lembrados, posteriormente.
Foi-nos dada uma dádiva, que é a de falar às gentes. Fomos contemplados pela capacidade de amar, sentir e tocar muitas pessoas de uma só vez. Usemos este dom, portanto, em prol de nossa mensagem, e façamos com que esta haja em benefício daqueles cuja voz grita em nossos corações, por dignidade e oportunidade.
Não aceitemos que pessoas sejam enganadas, subestimadas, esquecidas. Nem que sejam caladas, abandonadas ou preteridas. Não deixemos que isto aconteça, pelo bem de nossa consciência, pois o artista sem consciência é como lâmpada sem luz.
Sejamos, portanto o veículo, o amplificador destas vozes abafadas, a luz destes olhos turvos, o consolo destas barrigas vazias, o exemplo da mudança que almejamos. Pois o artista é também uma instituição de seu país.
 É o povo o doador maior de toda inspiração, voz, luz e sentido às nossas almas, e é ele também nosso provedor, que torna nossa sobrevivência e sonhos possíveis. Portanto, o artista que não toma como parte de seu trabalho o serviço em benefício das pessoas, não é adequado para nenhum palco e é indigno perante qualquer platéia.
Reflitamos, e tenhamos orgulho deste valoroso ofício. Pois somos os únicos soldados que lutam usando o coração como arma, e a beleza como munição.  

Nathalia Ferro.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

O erro, a nota, a nudez e a corda

O que te domina?
Sexo, drogas. Laços na tua sina.
Um sonho, um solo, um selo
Uma pele, um olhar, o espelho?
Te domina a dor, o horizonte, a chuva?
Te domina a faca, a carne crua, a curva?
Te domina a morte, seus ecos frios,
A inércia, a sorte?
E a gravidade, o céu, o inferno, o norte?
O que te domina?
Um nome, um filho, o brio
Um elo, a inveja e seus fios?
O pecado, uma fé, um Senhor
O dinheiro, sua mãe, a lei,
Um grande amor?
Te domina o vento, o oceano,  o universo,
Um pensamento?
Te domina a esperança e o absurdo de tudo?
Te domina teu próprio corpo
Tua mente, teu ofício, tua essência?
Apenas os loucos não se deixam dominar?
Te dominam todas as coisas feitas
Para te libertar?
.
.
E tu? O que dominas?

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

As Flores


Até hoje caderno vazio
Verso sem fio de condução
Até hoje nada
Mente lacrada
Pé enterrado no chão

De abandono me visto
Não sigo o que sinto
E minto a direção

Cores alucinantes são
Nos quadros que pinto
Paredes de ar
Painéis de ilusão

Ando perdida entre as flores
E vejo que estão vivas
E noto que são livres
Mesmo presas ao chão.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Celular e Antropofágico - Novos desenhos!

Este Pranto

Ah, querido...
Tu não sabes o quanto
Minguei da saudades,
E nem me vales da louca vontade
De te ouvir a voz;
Ah, amor que quero tanto,
Quanto mais me desespero
Tanto mais me acalanto,
Pois bem sei,
Este pranto
A ti se estenderá como um manto,
E  todo este lamento
Que muda, canto,
Fará vezes de tua volta
Até que minh'alma exausta se esvaia,
E me livre do teu encanto!

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Bixo, Eu Sou Psicodélica

Porque agora também vou postar meus desenhos.


              Feitos à mão, com as canetinhas coloridas da minha filha.


Café e Pão

Pra ver de perto
Sorrir aberto
Pra crer bem mais
No sentir...

Pra ter um teto
Um colo, um neto,
Um sonho,
Um amor pra vestir...

Pra ser sincera
Dizer que quero
Nunca mais sair...
E ser deserto
Se o mundo incerto
Levar meu bem daqui...

É que espero alguém
Assim,
Muito afim de mim,

Vontade de alguém
Assim,
Feito só só pra mim...

No céu e no chão,
Pr'o café e pr'o pão,
Para o sim e o não,
Para o meu coração.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Sampa

Muita rua, muita gente. Muito rápido.
Metrô. Saúde, Tucuruvi, Jabaquara.
O delicioso mundo das padarias!
Vila Madalena e Pompéia como amante e esposa. Uma serve pra sonhar, a outra é pra viver a vida. Ficam as duas eternamente se provocando e a gente achando graça, porque não se pode amar uma sem a outra.
A fria e bela menina Av. Paulista. Arrebatando olhares e trincando ossos. Linda de espantar, se abrindo toda, iluminada pelo céu de inverno. Louca de pedra, literalmente.
Augusta. Cinema, putas desbotadas-coloridas, música e seres exóticos. Longa e crua. Marco da profanação.
O Maravilhoso Mercado Mágico Central. Frutas paradisíacas, bancas pictóricas, monumentais sanduíches de mortadela. Dá vontade de lamber o chão.
Estação da Luz. Transcendental. Ecoando abraços, lágrimas e sorrisos. O trem que chega é o mesmo trem da partida. A hora do encontro e da despedida de gerações. Os Brasis e os mundos todos lá. O coração aperta e nem se liga que assim transborda mais.
Tudo enorme para nós formiguinhas.
Cracolândia. De costas pra Luz, o sobejo de coisas que imagino um dia terem sido gente. Ao meio dia, cardápio de putas na casa de tolerância: loira triste; nordestina arrependida; gorda sentada. Aviso: Puta alegre tem, mas acabou.
Que nem a felicidade aqui.
Desço a Consolação só pra me perder enquanto olho os aviões.
Me acho entre guitarras e violões na Teodoro Sampaio.
Sobe e desce na Santa Efigênia atrás dum megafone.
Não quero nenhuma roupa da José Paulino. Não quero nenhuma quinquilharia da 25 de Março.
Mas a Liberdade eu quis! Quis, quis, quis. Comi, cheirei, comprei a Liberdade pra mim, entre nipônicos delírios consumistas e orgasmos gastronômicos. Explosão sensorial, e viva a imigração japonesa. Afasta a morte essa tal de Liberdade.
Descer a Serra rumo ao litoral é nutrir os olhos e desentupir os ouvidos. Mas o mar é feio, e eu sou cosmopolita. Deu saudade da cidade cinza, e das luzes embaçadas no frio. Talvez porque nela as cores conheçam seu verdadeiro valor.
Mas valeu a pena sentir o coração fechar e novamente se encher de sol ao atravessar os túneis da Estrada de Santos.
Ao regressar havia um homem de paletó dando voltas num poste como Fred Asteire, e tudo fez sentido. Talvez porque era domingo. Talvez porque era Sampa.
Pelas avenidas, paredões de vidraças em prédios psicodélicos. Prédios estratosféricos. Históricos. Coloridos. Decadentes. Babilônicos.
Babel. Todo mundo é daqui. Aqui ninguém tem rosto, e como é grande e esmagadora a sensação de sermos um só.
Aqui o absurdo toma forma e fica até bonito, muitas vezes.
Aqui a deselegância é discreta, e os narcisos não tem espelho.
Porque é o avesso, do avesso, do avesso, do avesso.
Welcome to Concret Jungle.
The living is hardest, mas é incrível aqui.
Se jogue pedacinho no grosso fluxo que alimenta e doa toda vida quanta for possível a esse monstro feito de pedra, sangue, tempo e luz.
E mesmo que não entenda nada, as coisas que acontecerão no seu coração traduzirão a dura poesia concreta dessa cidade.
E é depressa que você aprende a chamá-la de realidade.

terça-feira, 4 de maio de 2010

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Lâminas, Monstros e Fogo: breves considerações

Então a lâmina do teu pensamento agudo me desmembra. Obviamente sou mais uma pessoa que nunca foi a favor, nem se deu bem com coisas que entram para ferir e retalhar.
Mas leio tuas palavras e a invasão é tão refinada que esqueço a dor e as máscaras.
E mais. Sigo lendo e relendo. Lendo você, e me relendo depois de você.
Não sou a mesma. Ninguém fica sendo o mesmo depois de ser picado em pedacinhos.
Que estranha maneira de me sentir viva! Que sensação incoerente essa de estar crua, frágil e nua nos fios das tuas lâminas, e no entando me sentir enorme, exata, diáfana.
E é ainda mais estranho. Porque estou falando de uma coisa que habita dentro de mim, me alimenta, e nem sei ainda se ela existe.
Surreal tanto quanto barcos à deriva no oceano, X- Men, Power Rangers, doidas furiosas vestidas de vermelho, roupas que voltam pra casa sem o cheiro desejado...
E monstros.
Mas seria desleal eu negar que já ouço os passos dessa "coisa", e te pressentir é antecipar legitimidade e amplos direitos a isso que agora me compele e deslumbra.
Claro que como toda boa mulher eu vou ter medo, desconfiar, considerar o tempo e sua capacidade de estabilizar emoções, de reduzi-las a impulsos leves, de cadência branda.
Mas ninguém entra numa fogueira querendo sair ileso.
Enquanto te leio nenhum pensamento é mais frequente e nenhuma imagem é mais clara que a do meu corpo carbonizado e pleno do teu. Sonhei contigo esta tarde.
E daí que no momento não tou aceitando menos da vida.
Não sou ingrata nem mal-educada, nem burra pra não reconhecer que ela só é grande quando arde na gente. Quando faz a gente arder.

... Só que o que mais me intriga mesmo, de tudo, é eu jamais ter desconfiado que lâminas, fogo e mostros, sempre tão devastadores, resultariam num encontro tão bonito...

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Ao Meu Amor


Imagem: Jana Magalhães.


Olho pra você
E a verdade é quem me responde pronta.

Foi no nosso dia-a-dia
Que fiz crescer minhas raízes:
No som inaudível
Dos seus passos rápidos pela casa,
Sempre retornando para mim;
Na sua voz mansa, doce,
Me dizendo sempre tão pouco;
No seu olhar risonho,
Me revelando sempre tanto;
No seu abraço quente,
Que é a minha morada verdadeira...

Olho pra você,
E observo sua serenidade infinita;
A beleza de você dormindo
Sendo superada pela grandeza
Do seu despertar...

E redescubro todos os dias,
Entre seus beijos e carinhos tão naturais,
As certezas mais bonitas;

E você desvenda pra mim,
Entre nossos elos mais triviais,
O real fundamento da minha vida.

Consolo da Lua


Imagem: A Lua - Tarsila do Amaral.


Vaga triste a Lua branca
E eu sentada na calçada...

Aqui sozinha não penso em nada.
Não me basta o acalanto
De te ter no pensamento...

Vaga e voa com o vento
Turvo e triste o desalento
De te ter sem te sentir.

Mata aos poucos o porvir...

Enxergar a minha vida
Sem teu corpo, tua guarida
Teu olhar e teu sorrir...

Mas é morno o sofrimento.

Se não estás aqui, em tempo,
Me consola a Lua branca,
A luzir no firmamento...

A lembrar que a paz que surge,
De cada amor que a gente cura,
É amiga, mãe, irmã e filha
Do tempo.

Torto do Meu Jeito


Imagem: Ann Tarantino.

Eu não sei fazer cubos perfeitos.
Nem laços perfeitos.
Nem flores perfeitas.

Eu não sei fazer nada direito.

Mas insisto,
E persisto
Na boa hora de ajeitar o traço,
De apertar o laço.
De pintar a flor.

Deve ser coisa do acaso
Deve ser caso de quem é torto
De dentro;

Eu que não acerto um passo,
Eu que não entendo como
Endireitar meu pensamento.