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terça-feira, 27 de setembro de 2011

Teu Abraço na Linha de Chegada


Basicamente o que tenho feito todos esses dias: fugir dos pensamentos de você e buscar pensar em mim. Tentar me reerguer, reagir, manter uma constância de dias sem lágrimas ou estômago se contorcendo.
É estranho dizer isso, logo eu que inspiro tanta autonomia, mas é um confronto estar só e ainda confortável comigo mesma. A gente só abre a boca pra dizer que não precisa de ninguém quando tem pessoas suficientes com quem possa contar. Quando fica sozinho de verdade não é assim que as coisas acontecem.
Dá medo. Dá medo porque você normalmente não se abraça, não se beija, não se faz calor ou conversa consigo mesmo nas horas entediantes. O que é um erro. Talvez, se tudo isso não fosse julgado conduta típica dos nossos camaradas internados nos hospícios, uma horas dessas não ficaríamos tão devastados pela partida de quem a gente ama.
E a gente nem aprende isso do dia pra noite. Por mais que eu tente sim me convencer de que sou uma pessoa linda, talentosa e completa, e tente fazer com que todas as minhas qualidades em seu esplendor desqualifiquem a saudade que eu sinto de você, ainda assim não adianta. Você corre junto com meu sangue. Está em cada molécula, fibra e fluido corporal meu. Ou não. Você não está mais aqui e por isso meu corpo inteiro, em catarse, implora por você.
É um luto. Tentar me acostumar com o desaparecimento de alguém que está vivo dentro de mim. É seguir na vida um dia de cada vez vencendo a abstinência do teu cheiro, do toque, da voz, dos beijos, do aconchego, da segurança de encostar minha cabeça no teu peito e me sentir a salvo do mundo.
As lágrimas, a dor, a tua indiferença, principalmente, devem me ajudar a superar. Te ver e ver que a pessoa que tanto amo não está mais ali, pelo simples fato de não mais me amar. É bem isso. Ninguém ama um estranho, e você sem me amar é alguém que desconheço por completo.
Mas eu quero te ver feliz, assim como anseio ver a mim. Porque a dor que sinto é muito em função das lacunas que deixei em nossa relação. Eu sei que você abriu mão por vários motivos que talvez ignore, mas muito se deu pelo cansaço que a minha ausência e inconsistência te causou. Isso me causa um horrível remorso e me deixa meio em dívida contigo, e por isso os meus votos são altruístas.
Se fosse do contrário, adoraria te ver sofrer, mas nem de longe é esse o caso. E por isso dói mais. Por isso eu penso mais. Porque eu daria tudo (“ó, senso de evolução, perdoai-me”) pra ter uma chance de fazer diferente, pra ver como é sentir orgulho de cuidar bem de quem cuidou tão bem de mim.
Só que a verdade é que ninguém consegue fazer alguém feliz tendo mil pendências consigo mesmo, e hoje eu me ocupo de sanar esta famigerada obrigação de cuidar de mim. Não é simples, não é fácil e muitas vezes não é bom, mas é o que deve ser feito. Presumo que a próxima pessoa a me amar terá ao seu lado alguém realmente inteiro. Presumo ser a próxima pessoa a me amar.
Seria um desconcertante paradoxo estar fazendo tudo isso na expectativa de um dia te ter de volta, mas pensando bem, uma imagem que me dá força pra continuar é me ver vencedora, recebendo teu abraço na linha de chegada, mesmo que depois de tantas provas eu nem precise mais dele.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

A Busca



Não tenho medo da escuridão
que se projeta em mim.
Com os olhos virados para dentro,
me desvendo em meio a meu próprio caos.
Tem sido sempre assim.
Às vezes tropeço, noutras me atropelo.
Mas sigo, cega de luz
e certa dos sentidos que me impelem...
Buscando cores que nunca vi
e sabores que jamais senti, 
desço ao abismo de meu interior
em busca de alguém que me faça feliz.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Labirinto de espelhos



Todo mundo vive procurando alguém que caiba no seu sonho. A personificação ideal do ser amado.
As pessoas buscam exaustivamente aquilo que existe em suas mentes e corações, sem se darem conta da incoerência desta empreitada.
O ser idealizado se auto-define pelo nome. E é isso mesmo, ele não existe no mundo em que vivemos. Simplesmente porque não é possível que isso ocorra. Não quero parecer presunçosa, mas geralmente a pessoa residente em nossos sonhos é algo como nós mesmos numa versão master power plus. Ou seja, pura egotrip da nossa parte. E nada razoável, vamo combinar.
Para amar, antes de tudo temos de estar dispostos a nos chocar. A deixar que o outro nos surpreenda, absorvendo isso de maneira positiva, aprendendo com a pessoa, se possível. Porque o amor de verdade é isso, é a gente se colocar em confronto consigo mesmo e achar o maior barato, e não uma masturbação. Amar não é escolher o espelho de corpo inteiro perfeito pro closet, é aceitar que a diferença do outro sempre vai nos acrescentar mais do que nossa vaidade poderia supor.
Claro que nem sempre vai ser bom. Mas ainda assim, é válido. Sem impasses e discussões, não haveria termômetros para o amor. Seríamos vacas holandesas pastando serenas, longe dessa aventura que faz a vida num corpo humano valer tanto a pena. O defeito que você enxerga na pessoa pode ser o que vai te indicar o quanto esta dita cuja é essencial em sua vida. Nada de estranho, nós é que somos seres incongruentes por natureza e precisamos desses artifícios para nos sentirmos vivos.
Por isso é tão importante se deixar um pouquinho de lado, no momento da busca pelo seu esquenta-pés das noites frias. Até porque, vamo falar francamente, a gente nunca se apaixona pelo que já previa! Materializado o ser sublime que ruleia em nossas cabecinhas birutas, e correríamos léguas de alguém tão óbvio.
A gente se apaixona é pelo que não sabe dizer. Quanto menos soubermos exprimir, mais envolvido estaremos. O desconhecido coloca nossa utopia no chinelo.
É aquele olhar que você não decifra, a sensação nova que nunca vai poder definir, os trejeitos únicos de alguém que, uma vez tocado por seus olhos, jamais se perderá na multidão. São a suprema fraqueza e a ignorância nos fazendo sentir enormes. É a felicidade concentrada num frasco de procendêcia duvidosa, que a gente toma, se vicia e não quer largar nunca mais.
Uma parceria real, legítima e satisfatória não poderia ter graça se fosse diferente. As pessoas são mesmo difíceis, mesquinhas, orgulhosas e mentirosas, mas são poucas as inaptas a dar e receber tanto amor quanto for possível.
O certo é que, num momento qualquer, uns olhos imprevistos irão brilhar para nós e o(a) dono(a) deles possuirá uma voz que atingirá mais fundo que de costume. Aí então receberemos um sinal para suspender a busca. E saberemos que o sabor da descoberta é muito melhor que o da certeza.
Quando, não sei. Mas o local onde isto ocorrerá eu posso confiar a você. Será na saída do labirinto de espelhos.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Irracionais Famintos

E por estar ali, parada e só, a saudade de você me acompanhava.
Por estar carregada de nós, de nossas lembranças, e exausta de nossas madrugadas, eu me mantinha no mesmo exato lugar, coadjuvante entre os objetos que foram também seus. Seus livros, suas canecas, nossos bichos e lençóis.
Com a memória travada de dores, passei incontáveis dias. Incontáveis também porque todos haviam se tornado uma coisa só, adormecer ou desperdar, tanto fazia. Tanto fazia se era dia ou noite.
De vez em quando eu me punha de pé para alimentar o cão, o gato e os pombos, dependentes que eram deste meu esforço, e aí era a hora da saudade ser também nutrida, alimentando-se de mim, me sugando, me exaurindo. Você sabe que nunca neguei alimento a nenhum irracional faminto, sendo ele animal, desejo ou sentimento.
Era assim que eu buscava consolo. Eram as coisas que me haviam sido deixadas pelo inventário do seu adeus.
E eu cuidei delas por anos.
Mas o cachorro, já velho, um dia morreu. O gato fugiu (ou foi atropelado numa de suas investidas noturnas, porém prefiro pensar na primeira hipótese), e os pombos desapareceram durante o último inverno. Talvez voltem. Aprendi com você a não esperar.
Só a saudade, hoje velha e sem tanta força para me acompanhar, me visita, de quando em vez.
Não lembro mais do seu rosto. Nunca me forcei a esquecê-lo, mas aconteceu que um dia passei em frente ao espelho, um pouco mais disposta,  e me achei até atraente. Daí passei a ocupar-me tranquila de mim. Na verdade, o que possuo hoje é a saudade de sentir saudade de alguém. E como só tem você, vai você mesmo.
E aí sou eu, meu livros, canecas e lencóis cheirosos. Minhas coisas tão amadas, que jamais me deixarão.
Os animais famintos, sempre que posso, alimento. Mas na rua mesmo. Os desejos também.
E quanto aos sentimentos, copiei uma mania sua. Mato todos de desprezo, de inanição.
"De boa". Sem remorso algum.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Meu Jardim

...  Já observaste que todo poema tem um contorno?


É que já não me interesso mais
Pelo que é feito sem música nem sinceridade.
Não quero mais as coisas brandas, de cadência suave.
Atrai-me o frenético, o inconstante certo.
Tanta loucura só pode dar em solidão.
Não me acostumo mais a viver sem arder
E ainda rimando, repito: na confusão, encontro solução.
Toda sem eixo escrevo meus caminhos tortos.
Não me amedronta o erro, mas a inércia...
E tudo de mim, a esmo, não passa de um relato solto,
De um jardim plantado sob a sombra do tempo,
Regado a lágrimas, cujas flores sem cores
Pinto de sonhos, sentimentos, e tudo que invento
Para colher o que possa chamar de “vida”.

Nathalia Ferro.


sexta-feira, 1 de outubro de 2010

O erro, a nota, a nudez e a corda

O que te domina?
Sexo, drogas. Laços na tua sina.
Um sonho, um solo, um selo
Uma pele, um olhar, o espelho?
Te domina a dor, o horizonte, a chuva?
Te domina a faca, a carne crua, a curva?
Te domina a morte, seus ecos frios,
A inércia, a sorte?
E a gravidade, o céu, o inferno, o norte?
O que te domina?
Um nome, um filho, o brio
Um elo, a inveja e seus fios?
O pecado, uma fé, um Senhor
O dinheiro, sua mãe, a lei,
Um grande amor?
Te domina o vento, o oceano,  o universo,
Um pensamento?
Te domina a esperança e o absurdo de tudo?
Te domina teu próprio corpo
Tua mente, teu ofício, tua essência?
Apenas os loucos não se deixam dominar?
Te dominam todas as coisas feitas
Para te libertar?
.
.
E tu? O que dominas?

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

As Flores


Até hoje caderno vazio
Verso sem fio de condução
Até hoje nada
Mente lacrada
Pé enterrado no chão

De abandono me visto
Não sigo o que sinto
E minto a direção

Cores alucinantes são
Nos quadros que pinto
Paredes de ar
Painéis de ilusão

Ando perdida entre as flores
E vejo que estão vivas
E noto que são livres
Mesmo presas ao chão.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Lâminas, Monstros e Fogo: breves considerações

Então a lâmina do teu pensamento agudo me desmembra. Obviamente sou mais uma pessoa que nunca foi a favor, nem se deu bem com coisas que entram para ferir e retalhar.
Mas leio tuas palavras e a invasão é tão refinada que esqueço a dor e as máscaras.
E mais. Sigo lendo e relendo. Lendo você, e me relendo depois de você.
Não sou a mesma. Ninguém fica sendo o mesmo depois de ser picado em pedacinhos.
Que estranha maneira de me sentir viva! Que sensação incoerente essa de estar crua, frágil e nua nos fios das tuas lâminas, e no entando me sentir enorme, exata, diáfana.
E é ainda mais estranho. Porque estou falando de uma coisa que habita dentro de mim, me alimenta, e nem sei ainda se ela existe.
Surreal tanto quanto barcos à deriva no oceano, X- Men, Power Rangers, doidas furiosas vestidas de vermelho, roupas que voltam pra casa sem o cheiro desejado...
E monstros.
Mas seria desleal eu negar que já ouço os passos dessa "coisa", e te pressentir é antecipar legitimidade e amplos direitos a isso que agora me compele e deslumbra.
Claro que como toda boa mulher eu vou ter medo, desconfiar, considerar o tempo e sua capacidade de estabilizar emoções, de reduzi-las a impulsos leves, de cadência branda.
Mas ninguém entra numa fogueira querendo sair ileso.
Enquanto te leio nenhum pensamento é mais frequente e nenhuma imagem é mais clara que a do meu corpo carbonizado e pleno do teu. Sonhei contigo esta tarde.
E daí que no momento não tou aceitando menos da vida.
Não sou ingrata nem mal-educada, nem burra pra não reconhecer que ela só é grande quando arde na gente. Quando faz a gente arder.

... Só que o que mais me intriga mesmo, de tudo, é eu jamais ter desconfiado que lâminas, fogo e mostros, sempre tão devastadores, resultariam num encontro tão bonito...

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Torto do Meu Jeito


Imagem: Ann Tarantino.

Eu não sei fazer cubos perfeitos.
Nem laços perfeitos.
Nem flores perfeitas.

Eu não sei fazer nada direito.

Mas insisto,
E persisto
Na boa hora de ajeitar o traço,
De apertar o laço.
De pintar a flor.

Deve ser coisa do acaso
Deve ser caso de quem é torto
De dentro;

Eu que não acerto um passo,
Eu que não entendo como
Endireitar meu pensamento.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Trabalho de Parto


Agora eu tento me despir da covardia, de toda esta pegajosa, dura e espessa crosta de covardia que me envolve, e tento falar lá de dentro de mim, muito do fundo, de dentro de todo o escuro, até, eu diria.

E tento dizer que existe mais. Que existe ainda mais para relatar, nesta bagunça quase irreversível, neste meu porão em que as vivências se confundem e se perdem, empoeiradas e abandonadas como se nunca tivessem um dia tido vida.

E tento expurgar. Meu deus, mas que força é pra botar pra fora aquilo que é somente meu e eu. Que dor infinda essa de trazer à tona aquilo que por dentro, instintivamente, eu conheço tão bem, e no entanto não explico , não traduzo, não decifro... Eu me calo e sinto, com a dor maior de ainda assim saber que o que sei e sinto jamais será de alguém além de meu, porque me faltou ao nascer a delicadeza e a generosidade para com as palavras que resgatam essas coisas mais íntimas.

Mas posso afirmar que existe mais. Que posso ser tudo nessa vida, menos rasa. Eu não sou dessas águas que se tingem de negras para parecerem mais profundas. E a reclamação vem toda de não saber onde fica o fundo, e de ter tanto medo dele que me acostumei a nadar segura pela superfície.

Só que agora ponho abaixo, por menor conforto e maior confronto que me cause, tudo aquilo que não for verdade. E a verdade sempre resguarda incompreensível simplicidade. A minha verdade maior sou eu, mesmo que me falte o refinamento ao relatar... Ser você mesmo é o que há de mais aterrorizante e desafiador. Mas é também que é coisa mais original que se pode ser, e por isso todos os aplausos àqueles que assumiram o ônus e a beleza de serem honestos consigo mesmos.

Ainda que existam as pessoas que em mim se fizeram e far-se-ão ao longo da minha vida. É bem sabido que a própria verdade é sujeita aos momentos e às circunstâncias, e que a gente deixa de acreditar e volta a acreditar em muitas coisas até que outras novas nos sejam apresentadas. Mas o mais importante de tudo é o compromisso ético de ser verdadeiro com você, no aqui e agora, e em todos os dias que vierem. De se tocar e se enxergar pra se sentir, e vice-versa.
É assim que a gente se descobre, é se analisando que a gente se entende. E nada disso é fácil, porque já existe aos montes no mercado opiniões, atitudes e pessoas prontas para incorporarmos, algumas a preços irrisórios e valendo muito menos ainda.

Me invade agressiva a urgência de ficar nua. De tudo e todos. Eu quero a solidão, a dor e o erro me ensinando e me emprenhando de mim, até que eu possa me parir madura e com os olhos devidamente abertos para o mundo.

Viver, amar, escrever, dói. Caio e Clarice tinham toda a razão. Mas nada pode custar mais ao meu espírito atordoado e estupefato pela vida que o hipócrita e mórbido silêncio da covardia, da auto-negação.

Muito antes aceitar o carma de ser eu mesma e sangrar todos os dias, a passar morta a vida inteira.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Pueril

Imagens: Ionit Zilmerman.


Envelhecer?!
Mas quando??
Ainda que me esforçasse para tanto...
A gente não vive tempo suficiente
Neste mundo
Para deixarmos de ser crianças.


sábado, 31 de outubro de 2009

Coisas estranhas ao seu lado

Ilustração: Ionit Zilberman.


Eu sinto coisas estranhas por você. Nunca senti igual por ninguém, e por isso mesmo chamo de coisas estranhas.
Eu não te amo, definitivamente. Não imagino nossos sobrenomes misturados, filhos com você, nem qualquer vida possível ao seu lado. Nada disso. Não me interessa detalhes sua história, nem conhecer mais profundamente as pessoas que você é.
Mas você me dá coisas estranhas. Tipo vontades insanas, tipo correr perigo, fazer bobagem sabe? Você me causa esses troços todos. E me dá vontade de chorar quando simplesmente some, e de gritar quando, do nada, aparece. Eu não entendo.
Queria poder dizer claramente o que sinto e me libertar dessa mania infeliz que eu tenho de ser sempre tão comedida, e compassada, e cautelosa. Eu queria dizer assim, na tua cara, num desses momentos que a gente tivesse de bobeira, que você me desestrutura, rapaz.
É que toda vez depois de te ver eu fico rebobinando (porque eu sou do tempo das bobinas do vídeo-cassete) cada expressão, cada sorriso fácil seus, pra reviver aquilo que eu vivi ao seu lado, mas não estou afim de viver outra vez.
Sinto uma saudade fodida de você, mas não quero te ver nunca mais.
Porque do seu lado eu não sei quem sou. É isso. Eu queria dizer na tua cara, seu alienígena, que eu não quero mais saber de você, porque eu não consigo me reconhecer do seu lado, você me olha e eu me transformo numa criatura que nunca conheci antes, cheia de uma fragilidade irritante, como se você me quebrasse em pedacinhos e me juntasse com as partes todas fora do lugar e eu não soubesse o que fazer com elas.
E eu tenho medo de você e de tudo isso que ficar sob seu eixo me causa.
Nunca fui de me assustar com o que desconheço.
Mentira. Mentira deslavada, lorota boa essa minha. Eu sou mulher e trago o medo na bagagem do meu gênero, mas medo assim ainda não tinha sentido.
Não estou falando de medo terror não, é uma coisa muito mais sutil, como se fosse uma forma refinada de medo que, injetada na minha corrente sanguínea, me deixasse sempre num estado entre o surto e a tranquilidade. Constantemente em alerta, eu diria.
É que, eu não sei porque, mas com você eu sinto uma vontade incontrolável de viver tudo até o limite, do seu lado eu me sinto plenamente fora do juízo, fissurada nos segundos presentes, liberta dos acontecimentos ao redor.
E mais do que qualquer das outras, a coisa mais estranha que sinto é me satisfazer das lembranças de você... Só por não suportar o peso da felicidade quando estou ao seu lado.

Souminha

Ilustração:Ionit Zilberman.


Tudo o que não fazes - e fazes
que não dizes - e dizes
que não ligas - e ligas;
Tudo que escreves, que replicas...
Tudo que repetes, no fundo não passa
de reprodução famigerada
do que queres que em ti
se esgote.

sábado, 11 de julho de 2009

Súplica


Enfeita de dourado
O meu dedo,
Jura que é meu homem,

Que é sangue do meu sangue
Que é meu dono,
Que é feliz...

Mas não me prende assim,
Como se eu já não fosse mais
Parte de mim,

Não me rouba assim
De graça, nem de leve,
Não me tira de mim.

Me coloca no alto, no altar,
Num chão, sob um teto,
Sob o céu do teu olhar,

Mas não me nega nunca,
Por maior que seja
A força do teu afeto,

Esse poder
Que só você tem
De me libertar.

sexta-feira, 13 de março de 2009

O Riso que Depõe a Força


Vem rir comigo o teu riso
Tilinta transparente o teu flutuar
Bate o vento em teus cabelos
E o cheiro que perfuma o ar
Faz minha alma mais leve...

Anjo feito homem
Lanças teu olhar fugidio
E tudo faz-se belo
E tudo clareia até brilhar!

Dá-me a seiva profana
Desta tua boca celestial
E faz-me beber até a última gota
Desta loucura
Que me traz tanta paz...

E me faz mansa, morna e tranquila
Que preciso descansar
Depois de tanta sorte!

Vem e silencia o grito abafado
Por amor
Que me estoura o peito,
E cala meu corpo com tuas mãos...

Vem rir comigo teu riso róseo
E me revela a face sublime
Desta paixão!

Ah, meu amor!
Afrouxa minhas pernas ansiosas
Devolve a ternura dos meus quadris...

Que já estou farta,
Já me sinto gasta,
Já estou torta
De tanta força bruta!

O Grão de Nós


Há de existir algum lugar para nós.
Nalgum ponto perdido, em alguma amplidão sem rumo nem caminho conhecido, haverá o nosso lugar.
Nele florescerá o avesso de toda distância que nos massacrou. Serão suprimidos e varridos para quilômetros de nós todo abismo e toda perda. Não haverá mais dores nem desenlaces, nem saudades, nem solidões veladas. Apenas a luz viva dos nossos olhos a se fitarem, marcados de sonhos que renascerão intactos, como o Sol que após a tempestade emprenha a terra de vida e esperança.
E seremos eu e tu imensamente um só. Uma semente de felicidade adornada pelo brilho das estrelas, abraçada pelo infinito universo. E seremos nós um grão genuíno e imperturbável de paz imperando humilde no tão aterrorizante caos, ou no mais remoto nada...

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Poema aos Olhos Daquele Menino



Os olhos daquele menino
Têm algo que é triste.
São dois bagos negros
Que bóiam no infinito.
São duas ônix perdidas
Na clareza pura
Daquele olhar tão bonito.

Os olhos daquele menino
Têm algo que é profundo...
Como se o tempo e as dimensões
Precipitassem em si mesmos
A desvalia dum amor perdido
E grandeza de todo amor do mundo.

E eu os sinto partindo e voltando
Ao porto da minha mente,
Como barquinhos cambaleantes,
Indo e vindo em focos lúcidos
Cada vez mais permanentes.

Aquele menino tem olhos de entardecer,
Olhos de verso triste
E de prosa descontinuada...
E tem ollhos de mistério,
Daqueles que dizem tudo em entrelinhas,
Mas fora delas não dizem nada.

E ele às vezes tem olhos de noite,
De lobo peregrino.
Olhos muito serenos, um tanto famintos,
E tão senhores de si,
Que se eu desconhecesse de quem são de fato
Jamais diria serem daquele menino.

Os olhos daquele menino
Têm algo que não se basta com nada.
E assim, tão sem se bastarem,
Destroem alegrias almejadas,
Pisam na paz conquistada,
Distorcem qualquer razão,
Brincam de sentir emoção,
E voltam-se
Tristes, serenos, amaros, profundos,
Aos movimentos dedilhados
Nas cordas daquele violão.

Aqueles olhos possuem
Algo que só existe
A sete alturas do céu
E a sete palmos da terra.

E desse luzir tão estranho
Procuro extrair poesia,
Embora haja em mim
Muito mais forte
Apenas o desejo e a sorte
De vê-lo iluminar só a mim, um dia.

Os olhos daquele menino desejo beijar.
Cuidadosamente acariciá-los fechados...
As pálpebras feito duas conchas cintilantes
Expostas à luz do luar.

E então,
Os olhos daquele menino
Têm algo que nostalgia...
E são lindos, e tão meigos,
Como estrelas matutinas
Enfeitando o céu do Sol.

Mas não são meus,
Tampouco de alguém.
E eu aqui,
Tonta, boba, magnetizada,
Me desfaço dentro em mim,
Tentando desvendar aquele olhar
E todas as suas metáforas,
E antíteses,
E sinestesias...

Talvez eu devesse apenas descrever
O quão pequenina continuaria a ser,
Se de repente,
Em meu destino,
Tão bruscos e belos,
Não houvessem aparecido
Os olhos daquele menino.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Legado



Nas ruas onde habitas
Não sobra nada
Tampouco a vida.
Não fica nada, apenas a ira
Amaciada e gasta
Dos teus sonhos mortos.
Não levas nada
Abandonas tudo pelo caminho.
Nem sequer lembranças
Guardarás de recordação.
Fica apenas o peito doído e seco,
Apenas a inglória e a escassa estória,
Somente o peso dum vazio sem cor nem memória,
Somente o teu legado de nãos.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Sobre Letras e Quedas




A folha em branco é meu espelho.
Estou aqui, tão pálida quanto crua,

Aguardando ser escrita...

Risco-me a folha
tentando inserir-me o conteúdo
Espalho sobre o papel os relatos do meu interior


[sem escrever não vivo
permaneço, mas não existo]

A folha caindo da árvore é meu espelho.
Quando é outono dentro de mim
também despenco
dos princípios que me agarram
e da moral que me sustenta

[Tem momentos em que me atirar ao vento
é ato de respeito
à minha própria natureza...]

Caio... linda e elegantemente
Pouso de borboleta
Mergulho no leito do solo

A lagarta, lá embaixo
me aguarda com fome
E eu só queria um colo!

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

A Jogada



[você tentando me ensinar a jogar xadrez,

e eu louca pra levar um xeque-mate.

não sou muito fã de jogos,

mas adoro comemorar com o vencedor.]