Basicamente o que tenho feito todos esses dias: fugir dos pensamentos de você e buscar pensar em mim. Tentar me reerguer, reagir, manter uma constância de dias sem lágrimas ou estômago se contorcendo.
É estranho dizer isso, logo eu que inspiro tanta autonomia, mas é um confronto estar só e ainda confortável comigo mesma. A gente só abre a boca pra dizer que não precisa de ninguém quando tem pessoas suficientes com quem possa contar. Quando fica sozinho de verdade não é assim que as coisas acontecem.
Dá medo. Dá medo porque você normalmente não se abraça, não se beija, não se faz calor ou conversa consigo mesmo nas horas entediantes. O que é um erro. Talvez, se tudo isso não fosse julgado conduta típica dos nossos camaradas internados nos hospícios, uma horas dessas não ficaríamos tão devastados pela partida de quem a gente ama.
E a gente nem aprende isso do dia pra noite. Por mais que eu tente sim me convencer de que sou uma pessoa linda, talentosa e completa, e tente fazer com que todas as minhas qualidades em seu esplendor desqualifiquem a saudade que eu sinto de você, ainda assim não adianta. Você corre junto com meu sangue. Está em cada molécula, fibra e fluido corporal meu. Ou não. Você não está mais aqui e por isso meu corpo inteiro, em catarse, implora por você.
É um luto. Tentar me acostumar com o desaparecimento de alguém que está vivo dentro de mim. É seguir na vida um dia de cada vez vencendo a abstinência do teu cheiro, do toque, da voz, dos beijos, do aconchego, da segurança de encostar minha cabeça no teu peito e me sentir a salvo do mundo.
As lágrimas, a dor, a tua indiferença, principalmente, devem me ajudar a superar. Te ver e ver que a pessoa que tanto amo não está mais ali, pelo simples fato de não mais me amar. É bem isso. Ninguém ama um estranho, e você sem me amar é alguém que desconheço por completo.
Mas eu quero te ver feliz, assim como anseio ver a mim. Porque a dor que sinto é muito em função das lacunas que deixei em nossa relação. Eu sei que você abriu mão por vários motivos que talvez ignore, mas muito se deu pelo cansaço que a minha ausência e inconsistência te causou. Isso me causa um horrível remorso e me deixa meio em dívida contigo, e por isso os meus votos são altruístas.
Se fosse do contrário, adoraria te ver sofrer, mas nem de longe é esse o caso. E por isso dói mais. Por isso eu penso mais. Porque eu daria tudo (“ó, senso de evolução, perdoai-me”) pra ter uma chance de fazer diferente, pra ver como é sentir orgulho de cuidar bem de quem cuidou tão bem de mim.
Só que a verdade é que ninguém consegue fazer alguém feliz tendo mil pendências consigo mesmo, e hoje eu me ocupo de sanar esta famigerada obrigação de cuidar de mim. Não é simples, não é fácil e muitas vezes não é bom, mas é o que deve ser feito. Presumo que a próxima pessoa a me amar terá ao seu lado alguém realmente inteiro. Presumo ser a próxima pessoa a me amar.
Seria um desconcertante paradoxo estar fazendo tudo isso na expectativa de um dia te ter de volta, mas pensando bem, uma imagem que me dá força pra continuar é me ver vencedora, recebendo teu abraço na linha de chegada, mesmo que depois de tantas provas eu nem precise mais dele.





















