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sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Medo


Eu tenho medo de me apaixonar. De ficar totalmente enlouquecida e escutar Chico Buarque bêbada rodopiando no quarto, e sentir que vou morrer da explosão de tanta vida condensada em mim. Eu tenho medo de me apaixonar romanticamente, de sentir essas correntes telúricas que sempre anunciam uma catástrofe de proporções jamais vistas. Eu tenho medo desse amor de não saber. Desse amor que dá costurar as horas e os minutos e os dias numa rede inextricável de dúvidas. Desse amor que transforma a gente em tocha humana, em manteiga humana, em trapo humano. Em humano. Eu tenho medo de me apaixonar e passar a me alimentar de uma coisa que só traz cada vez mais fome, e de ser consumida por essa fome, e de virar bicho com fome. Ou virar depósito pra uma tonelada de ausência. Eu tenho medo pavor de frio na bexiga, de frio nas mãos, de coração borbulhando a 300 graus Celsius. Eu tenho medo da minha vida inteira ser esticada num pêndulo que vai da loucura à plenitude. E de adoecer. Eu tenho medo de ser acometida por essa doença braba que nem sempre contagia quem a gente quer. Eu tenho medo de não ter uma mão pra segurar. Da insegurança que dá. Da burrice pela qual tanta gente admirável é vitimada. Tanta gente linda à mercê de um vírus. Tanta gente boa à disposição triste de esmolas afetivas. Não quero isso pra mim. Eu tenho medo de ter tanto medo ao ponto de nunca mais querer sentir, nem por quem valha à pena. Eu tenho medo de que esses quelóides em minha alma jamais deixem que minha sensibilidade retorne. Eu tenho medo de ver meu peito jazer inerte por não suportar a propulsão de um afeto brusco. De que as partes que restarem da destruição não reajam doloridas e vivas. De nunca mais ninguém me tirar de mim, de nunca mais mergulhar num olhar até perder o fôlego. De nunca mais me dissolver no corpo de ninguém e nunca mais escorrer pelas vias que levam a gente ao infinito. Eu tenho medo de me apaixonar e não aprender nunca, pequena que sou, que de paixão a gente não morre, a gente renasce.

domingo, 13 de março de 2011

Pra que pressa?

Pra que pressa, se a gente tem sinceridade?
Pra que abafar o gozo, desdenhar da sorte? 
Toda alegria que se tem na vida, meu bem,  
faz a gente se afastar da morte
e o tempo é um detalhe, quando o desejo é infinito.
Dos erros que cometi nessa vida, meu amor
você foi o mais bonito.

A enorme força da delicadeza

Uma borboleta brota
Da flor que canta
E grita suave o verde
Entre o zumbido manso
Das abelhas incansáveis...

Uma brisa fina
Refresca o tempo
E o azul do céu escorre
Macio, pelo horizonte pleno
De sol e coloridos montes...

Tudo tão simples e belo
Como são todas as verdades
E é cristalino
Como o olho do justo...

Na serena vibração
Na tom da melodia da terra
Na batida do coração,
No fluxo da seiva, na graça
Das coisa todas vivas
Tudo respira, vê e pulsa...

Nesta ternura infinita
De pés descalços e alma imensa...
Eu me deito para sentir
A enorme força da delicadeza.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Meu Jardim

...  Já observaste que todo poema tem um contorno?


É que já não me interesso mais
Pelo que é feito sem música nem sinceridade.
Não quero mais as coisas brandas, de cadência suave.
Atrai-me o frenético, o inconstante certo.
Tanta loucura só pode dar em solidão.
Não me acostumo mais a viver sem arder
E ainda rimando, repito: na confusão, encontro solução.
Toda sem eixo escrevo meus caminhos tortos.
Não me amedronta o erro, mas a inércia...
E tudo de mim, a esmo, não passa de um relato solto,
De um jardim plantado sob a sombra do tempo,
Regado a lágrimas, cujas flores sem cores
Pinto de sonhos, sentimentos, e tudo que invento
Para colher o que possa chamar de “vida”.

Nathalia Ferro.


segunda-feira, 4 de outubro de 2010

CARTA AOS ARTISTAS

O artista jamais pode deixar calar em seu peito a voz dos excluídos. Jamais.
Não pode deixar calar a voz dos que tem fome de comida e justiça, a voz de todos os livros não lidos pelas crianças sem escola, e pelos adultos iletrados.
Porque o peito do artista pulsa levando consigo o eco das multidões.  E é preciso que ele tenha sempre os sentidos atentos a estes clamores, que não os deixe de mão, por serem repetitivos e doloridos demais.
Sabe-se que os tempos são de acomodação, preguiça e desesperança. Sabe-se que hoje em dia as pessoas tem tanto medo de perderem suas situações arranjadas, como antes tinham de serem torturadas pela ditadura.
Mas é preciso que se diga: um povo ignorante, com viseiras nos olhos e adestrado economicamente por medidas assistencialistas não tem capacidade de consumir arte crítica e de qualidade.
Façamos então por nós mesmos, nós, artistas. Nós, que valorizamos nossas mentes e almas, que temos nossa expressão como riqueza maior. Ouçamos em nosso peito também a nossa própria voz que clama por atitude, posicionamento, coragem e esclarecimento, pois faz parte de nossa função, para que sejamos ouvidos e lembrados, posteriormente.
Foi-nos dada uma dádiva, que é a de falar às gentes. Fomos contemplados pela capacidade de amar, sentir e tocar muitas pessoas de uma só vez. Usemos este dom, portanto, em prol de nossa mensagem, e façamos com que esta haja em benefício daqueles cuja voz grita em nossos corações, por dignidade e oportunidade.
Não aceitemos que pessoas sejam enganadas, subestimadas, esquecidas. Nem que sejam caladas, abandonadas ou preteridas. Não deixemos que isto aconteça, pelo bem de nossa consciência, pois o artista sem consciência é como lâmpada sem luz.
Sejamos, portanto o veículo, o amplificador destas vozes abafadas, a luz destes olhos turvos, o consolo destas barrigas vazias, o exemplo da mudança que almejamos. Pois o artista é também uma instituição de seu país.
 É o povo o doador maior de toda inspiração, voz, luz e sentido às nossas almas, e é ele também nosso provedor, que torna nossa sobrevivência e sonhos possíveis. Portanto, o artista que não toma como parte de seu trabalho o serviço em benefício das pessoas, não é adequado para nenhum palco e é indigno perante qualquer platéia.
Reflitamos, e tenhamos orgulho deste valoroso ofício. Pois somos os únicos soldados que lutam usando o coração como arma, e a beleza como munição.  

Nathalia Ferro.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

O erro, a nota, a nudez e a corda

O que te domina?
Sexo, drogas. Laços na tua sina.
Um sonho, um solo, um selo
Uma pele, um olhar, o espelho?
Te domina a dor, o horizonte, a chuva?
Te domina a faca, a carne crua, a curva?
Te domina a morte, seus ecos frios,
A inércia, a sorte?
E a gravidade, o céu, o inferno, o norte?
O que te domina?
Um nome, um filho, o brio
Um elo, a inveja e seus fios?
O pecado, uma fé, um Senhor
O dinheiro, sua mãe, a lei,
Um grande amor?
Te domina o vento, o oceano,  o universo,
Um pensamento?
Te domina a esperança e o absurdo de tudo?
Te domina teu próprio corpo
Tua mente, teu ofício, tua essência?
Apenas os loucos não se deixam dominar?
Te dominam todas as coisas feitas
Para te libertar?
.
.
E tu? O que dominas?

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Este Pranto

Ah, querido...
Tu não sabes o quanto
Minguei da saudades,
E nem me vales da louca vontade
De te ouvir a voz;
Ah, amor que quero tanto,
Quanto mais me desespero
Tanto mais me acalanto,
Pois bem sei,
Este pranto
A ti se estenderá como um manto,
E  todo este lamento
Que muda, canto,
Fará vezes de tua volta
Até que minh'alma exausta se esvaia,
E me livre do teu encanto!

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Café e Pão

Pra ver de perto
Sorrir aberto
Pra crer bem mais
No sentir...

Pra ter um teto
Um colo, um neto,
Um sonho,
Um amor pra vestir...

Pra ser sincera
Dizer que quero
Nunca mais sair...
E ser deserto
Se o mundo incerto
Levar meu bem daqui...

É que espero alguém
Assim,
Muito afim de mim,

Vontade de alguém
Assim,
Feito só só pra mim...

No céu e no chão,
Pr'o café e pr'o pão,
Para o sim e o não,
Para o meu coração.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Sampa

Muita rua, muita gente. Muito rápido.
Metrô. Saúde, Tucuruvi, Jabaquara.
O delicioso mundo das padarias!
Vila Madalena e Pompéia como amante e esposa. Uma serve pra sonhar, a outra é pra viver a vida. Ficam as duas eternamente se provocando e a gente achando graça, porque não se pode amar uma sem a outra.
A fria e bela menina Av. Paulista. Arrebatando olhares e trincando ossos. Linda de espantar, se abrindo toda, iluminada pelo céu de inverno. Louca de pedra, literalmente.
Augusta. Cinema, putas desbotadas-coloridas, música e seres exóticos. Longa e crua. Marco da profanação.
O Maravilhoso Mercado Mágico Central. Frutas paradisíacas, bancas pictóricas, monumentais sanduíches de mortadela. Dá vontade de lamber o chão.
Estação da Luz. Transcendental. Ecoando abraços, lágrimas e sorrisos. O trem que chega é o mesmo trem da partida. A hora do encontro e da despedida de gerações. Os Brasis e os mundos todos lá. O coração aperta e nem se liga que assim transborda mais.
Tudo enorme para nós formiguinhas.
Cracolândia. De costas pra Luz, o sobejo de coisas que imagino um dia terem sido gente. Ao meio dia, cardápio de putas na casa de tolerância: loira triste; nordestina arrependida; gorda sentada. Aviso: Puta alegre tem, mas acabou.
Que nem a felicidade aqui.
Desço a Consolação só pra me perder enquanto olho os aviões.
Me acho entre guitarras e violões na Teodoro Sampaio.
Sobe e desce na Santa Efigênia atrás dum megafone.
Não quero nenhuma roupa da José Paulino. Não quero nenhuma quinquilharia da 25 de Março.
Mas a Liberdade eu quis! Quis, quis, quis. Comi, cheirei, comprei a Liberdade pra mim, entre nipônicos delírios consumistas e orgasmos gastronômicos. Explosão sensorial, e viva a imigração japonesa. Afasta a morte essa tal de Liberdade.
Descer a Serra rumo ao litoral é nutrir os olhos e desentupir os ouvidos. Mas o mar é feio, e eu sou cosmopolita. Deu saudade da cidade cinza, e das luzes embaçadas no frio. Talvez porque nela as cores conheçam seu verdadeiro valor.
Mas valeu a pena sentir o coração fechar e novamente se encher de sol ao atravessar os túneis da Estrada de Santos.
Ao regressar havia um homem de paletó dando voltas num poste como Fred Asteire, e tudo fez sentido. Talvez porque era domingo. Talvez porque era Sampa.
Pelas avenidas, paredões de vidraças em prédios psicodélicos. Prédios estratosféricos. Históricos. Coloridos. Decadentes. Babilônicos.
Babel. Todo mundo é daqui. Aqui ninguém tem rosto, e como é grande e esmagadora a sensação de sermos um só.
Aqui o absurdo toma forma e fica até bonito, muitas vezes.
Aqui a deselegância é discreta, e os narcisos não tem espelho.
Porque é o avesso, do avesso, do avesso, do avesso.
Welcome to Concret Jungle.
The living is hardest, mas é incrível aqui.
Se jogue pedacinho no grosso fluxo que alimenta e doa toda vida quanta for possível a esse monstro feito de pedra, sangue, tempo e luz.
E mesmo que não entenda nada, as coisas que acontecerão no seu coração traduzirão a dura poesia concreta dessa cidade.
E é depressa que você aprende a chamá-la de realidade.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Caio Fernando Abreu


Clica na imagem que você lê melhor.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Lâminas, Monstros e Fogo: breves considerações

Então a lâmina do teu pensamento agudo me desmembra. Obviamente sou mais uma pessoa que nunca foi a favor, nem se deu bem com coisas que entram para ferir e retalhar.
Mas leio tuas palavras e a invasão é tão refinada que esqueço a dor e as máscaras.
E mais. Sigo lendo e relendo. Lendo você, e me relendo depois de você.
Não sou a mesma. Ninguém fica sendo o mesmo depois de ser picado em pedacinhos.
Que estranha maneira de me sentir viva! Que sensação incoerente essa de estar crua, frágil e nua nos fios das tuas lâminas, e no entando me sentir enorme, exata, diáfana.
E é ainda mais estranho. Porque estou falando de uma coisa que habita dentro de mim, me alimenta, e nem sei ainda se ela existe.
Surreal tanto quanto barcos à deriva no oceano, X- Men, Power Rangers, doidas furiosas vestidas de vermelho, roupas que voltam pra casa sem o cheiro desejado...
E monstros.
Mas seria desleal eu negar que já ouço os passos dessa "coisa", e te pressentir é antecipar legitimidade e amplos direitos a isso que agora me compele e deslumbra.
Claro que como toda boa mulher eu vou ter medo, desconfiar, considerar o tempo e sua capacidade de estabilizar emoções, de reduzi-las a impulsos leves, de cadência branda.
Mas ninguém entra numa fogueira querendo sair ileso.
Enquanto te leio nenhum pensamento é mais frequente e nenhuma imagem é mais clara que a do meu corpo carbonizado e pleno do teu. Sonhei contigo esta tarde.
E daí que no momento não tou aceitando menos da vida.
Não sou ingrata nem mal-educada, nem burra pra não reconhecer que ela só é grande quando arde na gente. Quando faz a gente arder.

... Só que o que mais me intriga mesmo, de tudo, é eu jamais ter desconfiado que lâminas, fogo e mostros, sempre tão devastadores, resultariam num encontro tão bonito...

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Ao Meu Amor


Imagem: Jana Magalhães.


Olho pra você
E a verdade é quem me responde pronta.

Foi no nosso dia-a-dia
Que fiz crescer minhas raízes:
No som inaudível
Dos seus passos rápidos pela casa,
Sempre retornando para mim;
Na sua voz mansa, doce,
Me dizendo sempre tão pouco;
No seu olhar risonho,
Me revelando sempre tanto;
No seu abraço quente,
Que é a minha morada verdadeira...

Olho pra você,
E observo sua serenidade infinita;
A beleza de você dormindo
Sendo superada pela grandeza
Do seu despertar...

E redescubro todos os dias,
Entre seus beijos e carinhos tão naturais,
As certezas mais bonitas;

E você desvenda pra mim,
Entre nossos elos mais triviais,
O real fundamento da minha vida.

Consolo da Lua


Imagem: A Lua - Tarsila do Amaral.


Vaga triste a Lua branca
E eu sentada na calçada...

Aqui sozinha não penso em nada.
Não me basta o acalanto
De te ter no pensamento...

Vaga e voa com o vento
Turvo e triste o desalento
De te ter sem te sentir.

Mata aos poucos o porvir...

Enxergar a minha vida
Sem teu corpo, tua guarida
Teu olhar e teu sorrir...

Mas é morno o sofrimento.

Se não estás aqui, em tempo,
Me consola a Lua branca,
A luzir no firmamento...

A lembrar que a paz que surge,
De cada amor que a gente cura,
É amiga, mãe, irmã e filha
Do tempo.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Les Ami



Quase me faz chorar
Muito da sua maneira:
Uma mistura de doce com amargo,
Colherzinha de café numa xícara de açúcar.

Pra casa volto sentindo o vento
Me batendo no rosto
Implorando pra que eu a esqueça,
Me alertando antes que eu enlouqueça;

É que ela é a mulher dos meus sonhos,
Em timbre, cor, tamanho e delicadeza.
E em minhas mãos ela encaixa tão bem,
Que chego a pensar serem só minhas
Todas as harmonias que ela sozinha detém;

E quando ela se vai,
Me deixando numa saudade eterna,
Buscando vestígios de seu cheiro,
Abraço a parte que dela me resta;

E fechando meus olhos acordado,
Cuidadosa, meiga, incerta...
Eu a posso ver clara,
Iluminando minha noite deserta.

sábado, 31 de outubro de 2009

Coisas estranhas ao seu lado

Ilustração: Ionit Zilberman.


Eu sinto coisas estranhas por você. Nunca senti igual por ninguém, e por isso mesmo chamo de coisas estranhas.
Eu não te amo, definitivamente. Não imagino nossos sobrenomes misturados, filhos com você, nem qualquer vida possível ao seu lado. Nada disso. Não me interessa detalhes sua história, nem conhecer mais profundamente as pessoas que você é.
Mas você me dá coisas estranhas. Tipo vontades insanas, tipo correr perigo, fazer bobagem sabe? Você me causa esses troços todos. E me dá vontade de chorar quando simplesmente some, e de gritar quando, do nada, aparece. Eu não entendo.
Queria poder dizer claramente o que sinto e me libertar dessa mania infeliz que eu tenho de ser sempre tão comedida, e compassada, e cautelosa. Eu queria dizer assim, na tua cara, num desses momentos que a gente tivesse de bobeira, que você me desestrutura, rapaz.
É que toda vez depois de te ver eu fico rebobinando (porque eu sou do tempo das bobinas do vídeo-cassete) cada expressão, cada sorriso fácil seus, pra reviver aquilo que eu vivi ao seu lado, mas não estou afim de viver outra vez.
Sinto uma saudade fodida de você, mas não quero te ver nunca mais.
Porque do seu lado eu não sei quem sou. É isso. Eu queria dizer na tua cara, seu alienígena, que eu não quero mais saber de você, porque eu não consigo me reconhecer do seu lado, você me olha e eu me transformo numa criatura que nunca conheci antes, cheia de uma fragilidade irritante, como se você me quebrasse em pedacinhos e me juntasse com as partes todas fora do lugar e eu não soubesse o que fazer com elas.
E eu tenho medo de você e de tudo isso que ficar sob seu eixo me causa.
Nunca fui de me assustar com o que desconheço.
Mentira. Mentira deslavada, lorota boa essa minha. Eu sou mulher e trago o medo na bagagem do meu gênero, mas medo assim ainda não tinha sentido.
Não estou falando de medo terror não, é uma coisa muito mais sutil, como se fosse uma forma refinada de medo que, injetada na minha corrente sanguínea, me deixasse sempre num estado entre o surto e a tranquilidade. Constantemente em alerta, eu diria.
É que, eu não sei porque, mas com você eu sinto uma vontade incontrolável de viver tudo até o limite, do seu lado eu me sinto plenamente fora do juízo, fissurada nos segundos presentes, liberta dos acontecimentos ao redor.
E mais do que qualquer das outras, a coisa mais estranha que sinto é me satisfazer das lembranças de você... Só por não suportar o peso da felicidade quando estou ao seu lado.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Abre Aspas

Imagem: Ann Tarantino.



Escondi entre as flores
De papel-machê-manchadas,
Numa caixa de cetim vermelho,
Uma foto polaroid enevoada.

Teu sorriso amarelando,
Já meio roído de traças,
E no verso uma promessa
Que nunca vingou...

Entre os tons decadentes das flores
E a esperança empoeirada,
Te fazem companhia minha dor,
Suas traças...

E trancafiadas para sempre
Na mesma sangrenta caixa,
Todas cores que teu sorriso
Me levou.

sábado, 11 de julho de 2009

Súplica


Enfeita de dourado
O meu dedo,
Jura que é meu homem,

Que é sangue do meu sangue
Que é meu dono,
Que é feliz...

Mas não me prende assim,
Como se eu já não fosse mais
Parte de mim,

Não me rouba assim
De graça, nem de leve,
Não me tira de mim.

Me coloca no alto, no altar,
Num chão, sob um teto,
Sob o céu do teu olhar,

Mas não me nega nunca,
Por maior que seja
A força do teu afeto,

Esse poder
Que só você tem
De me libertar.

sábado, 13 de junho de 2009

Para que passes de mim



Para que passes de mim
E eu não tenha mais que lembrar
Da manhã que se levantava preguiçosa,
Cuidadosa, para não incomodar
A gente que se amava sem pressa
A gente que se enroscava sem nexo
Enquanto tudo fazia sentido...

Para eu não mais me valer de ti
Me dizendo suave
Que de nada adianta se ter juízo,
E escorregando solto pelo meu corpo
Feito água, feito fogo,
Me inundava, me queimava inteira...

Para que saias daqui,
E eu não tenha que imaginar
Nossos lábios famintos
Se buscando, se abrindo,
Se consumindo,
Em beijos tórridos e luminosos...

Nem me recordar,
Contente e louca,
Da maciez dos teus gestos,
Da doçura do teu corpo,
Da brancura do teu gosto...

Para que eu não passe os dias
A me situar no instante exato
Em que tuas mãos se confundiam
[Entre a malícia e a ternura,
O carinho e a maldade,
A candura e a sordidez],
Neste espaço pequeno que sou
E que tomaste, romântico e bruto,
Como terra nunca antes desvendada...

Para que eu não viva mais
Remoendo minha estupidez,
Me infiltrando pelas fendas
De cada minuto que voei
Entre teus braços...

É que te peço
Para que passes de mim
E leves contigo esta solidão.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Instante (música minha e de Rommel Ribeiro)



Vejo os instantes
Que se passam,
E eu aqui,
Parada, letárgica;
Com esse olho que não vê
E essa mão esquecida
Debaixo do queixo...
Aqui algo fundo
Pergunta por você...

E a espera densa,
Angústia intensa,
A esperança afogueada,
Em volta há menos que nada;
Uma sobra imensa
Do que não há...

Sinto que o instante
E toda espera
Não me leva a nada
Nada, nada, nada, nada, não!
Apenas ardem,
Como eu e você...

A gente já não passa
De um instante!

O Riso que Depõe a Força


Vem rir comigo o teu riso
Tilinta transparente o teu flutuar
Bate o vento em teus cabelos
E o cheiro que perfuma o ar
Faz minha alma mais leve...

Anjo feito homem
Lanças teu olhar fugidio
E tudo faz-se belo
E tudo clareia até brilhar!

Dá-me a seiva profana
Desta tua boca celestial
E faz-me beber até a última gota
Desta loucura
Que me traz tanta paz...

E me faz mansa, morna e tranquila
Que preciso descansar
Depois de tanta sorte!

Vem e silencia o grito abafado
Por amor
Que me estoura o peito,
E cala meu corpo com tuas mãos...

Vem rir comigo teu riso róseo
E me revela a face sublime
Desta paixão!

Ah, meu amor!
Afrouxa minhas pernas ansiosas
Devolve a ternura dos meus quadris...

Que já estou farta,
Já me sinto gasta,
Já estou torta
De tanta força bruta!