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domingo, 13 de março de 2011

A enorme força da delicadeza

Uma borboleta brota
Da flor que canta
E grita suave o verde
Entre o zumbido manso
Das abelhas incansáveis...

Uma brisa fina
Refresca o tempo
E o azul do céu escorre
Macio, pelo horizonte pleno
De sol e coloridos montes...

Tudo tão simples e belo
Como são todas as verdades
E é cristalino
Como o olho do justo...

Na serena vibração
Na tom da melodia da terra
Na batida do coração,
No fluxo da seiva, na graça
Das coisa todas vivas
Tudo respira, vê e pulsa...

Nesta ternura infinita
De pés descalços e alma imensa...
Eu me deito para sentir
A enorme força da delicadeza.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Metrô

Descompasso, contra o passo
Todos são no turbilhão
Desconexos, incompletos
Peixes sós na confusão

Pantelmintos no labirinto
Nas certezas de ilusão
São castelos, fortalezas
São reféns da solidão

Tanto indo quanto vindo
Rumo a toda direção
São vulgares, são lugares
Aonde sonhos nunca vão

São prelúdios absurdos
Nunca aos pares, nunca irmãos
Tão confuso é o fuso
No pulsar da multidão.

Nathalia Ferro.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Sampa

Muita rua, muita gente. Muito rápido.
Metrô. Saúde, Tucuruvi, Jabaquara.
O delicioso mundo das padarias!
Vila Madalena e Pompéia como amante e esposa. Uma serve pra sonhar, a outra é pra viver a vida. Ficam as duas eternamente se provocando e a gente achando graça, porque não se pode amar uma sem a outra.
A fria e bela menina Av. Paulista. Arrebatando olhares e trincando ossos. Linda de espantar, se abrindo toda, iluminada pelo céu de inverno. Louca de pedra, literalmente.
Augusta. Cinema, putas desbotadas-coloridas, música e seres exóticos. Longa e crua. Marco da profanação.
O Maravilhoso Mercado Mágico Central. Frutas paradisíacas, bancas pictóricas, monumentais sanduíches de mortadela. Dá vontade de lamber o chão.
Estação da Luz. Transcendental. Ecoando abraços, lágrimas e sorrisos. O trem que chega é o mesmo trem da partida. A hora do encontro e da despedida de gerações. Os Brasis e os mundos todos lá. O coração aperta e nem se liga que assim transborda mais.
Tudo enorme para nós formiguinhas.
Cracolândia. De costas pra Luz, o sobejo de coisas que imagino um dia terem sido gente. Ao meio dia, cardápio de putas na casa de tolerância: loira triste; nordestina arrependida; gorda sentada. Aviso: Puta alegre tem, mas acabou.
Que nem a felicidade aqui.
Desço a Consolação só pra me perder enquanto olho os aviões.
Me acho entre guitarras e violões na Teodoro Sampaio.
Sobe e desce na Santa Efigênia atrás dum megafone.
Não quero nenhuma roupa da José Paulino. Não quero nenhuma quinquilharia da 25 de Março.
Mas a Liberdade eu quis! Quis, quis, quis. Comi, cheirei, comprei a Liberdade pra mim, entre nipônicos delírios consumistas e orgasmos gastronômicos. Explosão sensorial, e viva a imigração japonesa. Afasta a morte essa tal de Liberdade.
Descer a Serra rumo ao litoral é nutrir os olhos e desentupir os ouvidos. Mas o mar é feio, e eu sou cosmopolita. Deu saudade da cidade cinza, e das luzes embaçadas no frio. Talvez porque nela as cores conheçam seu verdadeiro valor.
Mas valeu a pena sentir o coração fechar e novamente se encher de sol ao atravessar os túneis da Estrada de Santos.
Ao regressar havia um homem de paletó dando voltas num poste como Fred Asteire, e tudo fez sentido. Talvez porque era domingo. Talvez porque era Sampa.
Pelas avenidas, paredões de vidraças em prédios psicodélicos. Prédios estratosféricos. Históricos. Coloridos. Decadentes. Babilônicos.
Babel. Todo mundo é daqui. Aqui ninguém tem rosto, e como é grande e esmagadora a sensação de sermos um só.
Aqui o absurdo toma forma e fica até bonito, muitas vezes.
Aqui a deselegância é discreta, e os narcisos não tem espelho.
Porque é o avesso, do avesso, do avesso, do avesso.
Welcome to Concret Jungle.
The living is hardest, mas é incrível aqui.
Se jogue pedacinho no grosso fluxo que alimenta e doa toda vida quanta for possível a esse monstro feito de pedra, sangue, tempo e luz.
E mesmo que não entenda nada, as coisas que acontecerão no seu coração traduzirão a dura poesia concreta dessa cidade.
E é depressa que você aprende a chamá-la de realidade.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Caio Fernando Abreu


Clica na imagem que você lê melhor.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Les Ami



Quase me faz chorar
Muito da sua maneira:
Uma mistura de doce com amargo,
Colherzinha de café numa xícara de açúcar.

Pra casa volto sentindo o vento
Me batendo no rosto
Implorando pra que eu a esqueça,
Me alertando antes que eu enlouqueça;

É que ela é a mulher dos meus sonhos,
Em timbre, cor, tamanho e delicadeza.
E em minhas mãos ela encaixa tão bem,
Que chego a pensar serem só minhas
Todas as harmonias que ela sozinha detém;

E quando ela se vai,
Me deixando numa saudade eterna,
Buscando vestígios de seu cheiro,
Abraço a parte que dela me resta;

E fechando meus olhos acordado,
Cuidadosa, meiga, incerta...
Eu a posso ver clara,
Iluminando minha noite deserta.

sábado, 13 de junho de 2009

Para que passes de mim



Para que passes de mim
E eu não tenha mais que lembrar
Da manhã que se levantava preguiçosa,
Cuidadosa, para não incomodar
A gente que se amava sem pressa
A gente que se enroscava sem nexo
Enquanto tudo fazia sentido...

Para eu não mais me valer de ti
Me dizendo suave
Que de nada adianta se ter juízo,
E escorregando solto pelo meu corpo
Feito água, feito fogo,
Me inundava, me queimava inteira...

Para que saias daqui,
E eu não tenha que imaginar
Nossos lábios famintos
Se buscando, se abrindo,
Se consumindo,
Em beijos tórridos e luminosos...

Nem me recordar,
Contente e louca,
Da maciez dos teus gestos,
Da doçura do teu corpo,
Da brancura do teu gosto...

Para que eu não passe os dias
A me situar no instante exato
Em que tuas mãos se confundiam
[Entre a malícia e a ternura,
O carinho e a maldade,
A candura e a sordidez],
Neste espaço pequeno que sou
E que tomaste, romântico e bruto,
Como terra nunca antes desvendada...

Para que eu não viva mais
Remoendo minha estupidez,
Me infiltrando pelas fendas
De cada minuto que voei
Entre teus braços...

É que te peço
Para que passes de mim
E leves contigo esta solidão.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Instante (música minha e de Rommel Ribeiro)



Vejo os instantes
Que se passam,
E eu aqui,
Parada, letárgica;
Com esse olho que não vê
E essa mão esquecida
Debaixo do queixo...
Aqui algo fundo
Pergunta por você...

E a espera densa,
Angústia intensa,
A esperança afogueada,
Em volta há menos que nada;
Uma sobra imensa
Do que não há...

Sinto que o instante
E toda espera
Não me leva a nada
Nada, nada, nada, nada, não!
Apenas ardem,
Como eu e você...

A gente já não passa
De um instante!

O Grão de Nós


Há de existir algum lugar para nós.
Nalgum ponto perdido, em alguma amplidão sem rumo nem caminho conhecido, haverá o nosso lugar.
Nele florescerá o avesso de toda distância que nos massacrou. Serão suprimidos e varridos para quilômetros de nós todo abismo e toda perda. Não haverá mais dores nem desenlaces, nem saudades, nem solidões veladas. Apenas a luz viva dos nossos olhos a se fitarem, marcados de sonhos que renascerão intactos, como o Sol que após a tempestade emprenha a terra de vida e esperança.
E seremos eu e tu imensamente um só. Uma semente de felicidade adornada pelo brilho das estrelas, abraçada pelo infinito universo. E seremos nós um grão genuíno e imperturbável de paz imperando humilde no tão aterrorizante caos, ou no mais remoto nada...

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Poema aos Olhos Daquele Menino



Os olhos daquele menino
Têm algo que é triste.
São dois bagos negros
Que bóiam no infinito.
São duas ônix perdidas
Na clareza pura
Daquele olhar tão bonito.

Os olhos daquele menino
Têm algo que é profundo...
Como se o tempo e as dimensões
Precipitassem em si mesmos
A desvalia dum amor perdido
E grandeza de todo amor do mundo.

E eu os sinto partindo e voltando
Ao porto da minha mente,
Como barquinhos cambaleantes,
Indo e vindo em focos lúcidos
Cada vez mais permanentes.

Aquele menino tem olhos de entardecer,
Olhos de verso triste
E de prosa descontinuada...
E tem ollhos de mistério,
Daqueles que dizem tudo em entrelinhas,
Mas fora delas não dizem nada.

E ele às vezes tem olhos de noite,
De lobo peregrino.
Olhos muito serenos, um tanto famintos,
E tão senhores de si,
Que se eu desconhecesse de quem são de fato
Jamais diria serem daquele menino.

Os olhos daquele menino
Têm algo que não se basta com nada.
E assim, tão sem se bastarem,
Destroem alegrias almejadas,
Pisam na paz conquistada,
Distorcem qualquer razão,
Brincam de sentir emoção,
E voltam-se
Tristes, serenos, amaros, profundos,
Aos movimentos dedilhados
Nas cordas daquele violão.

Aqueles olhos possuem
Algo que só existe
A sete alturas do céu
E a sete palmos da terra.

E desse luzir tão estranho
Procuro extrair poesia,
Embora haja em mim
Muito mais forte
Apenas o desejo e a sorte
De vê-lo iluminar só a mim, um dia.

Os olhos daquele menino desejo beijar.
Cuidadosamente acariciá-los fechados...
As pálpebras feito duas conchas cintilantes
Expostas à luz do luar.

E então,
Os olhos daquele menino
Têm algo que nostalgia...
E são lindos, e tão meigos,
Como estrelas matutinas
Enfeitando o céu do Sol.

Mas não são meus,
Tampouco de alguém.
E eu aqui,
Tonta, boba, magnetizada,
Me desfaço dentro em mim,
Tentando desvendar aquele olhar
E todas as suas metáforas,
E antíteses,
E sinestesias...

Talvez eu devesse apenas descrever
O quão pequenina continuaria a ser,
Se de repente,
Em meu destino,
Tão bruscos e belos,
Não houvessem aparecido
Os olhos daquele menino.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

A Falta e a Chuva


O tempo ia escorrendo pela janela. Dava pra escutar o som da chuva com o tato e o olfato. De dentro do quarto tudo parecia tão pequeno que ela se esforçava para fazer render o ar.
Eram os beijos dele que faltavam ali. A falta deles roubava o oxigênio ao redor. E não havia nenhuma maneira de se concentrar, de conseguir se transportar de volta àquele colo. A ausência daquele homem triturava sua carne, e ela sentia como se escondesse um multiprocessador ligado no estômago. Ninguém conseguiria se concentrar sentindo tanta dor.
Aquelas mãos haviam viciado sua pele, e ela queria que o toque indescritível dele funcionasse também na distância, como a chuva que caia e que ela sentia com pelo menos dois sentidos a mais que o necessário.
É que ele possuía uma fluidez que lhe havia desandado as bases, uma coisa que anulava nela a mínima chance de pensar em reagir. Era algo que a tomava por dentro e por fora, rica e inebriante substância que agora corria em suas veias, que entorpecia quando ele estava por perto e enlouquecia quando ele partia.
E era tudo tão simples, intenso, profundo, bonito e dolorido... Tão mágico e tão perigoso...
Era a presença e a permanência dele, mesmo depois de ir-se.
Era aquilo que ela desejava, com todas as forças, quase em súplica, quase a gritar, mas sabia não ser sem consequências, e nem por isso desejava menos.
Aquele homem, a maneira incomparável dele de existir tão lindamente, irredutivelmente perfeito e tão superior a ela, que ali estava com frio e em vazia solidão.
Mas ela sabia. E olhava pra fora, para o sol que ia tímidamente alongando os raios por entre as nuvens ainda carregadas... E sentindo o cheiro terroso que se dissipava no ar que lhe restava ela lembrava, não sem tristeza, que toda dor provocada por uma paixão era assim... Forte, intensa, destruidora, insana e breve, como a
chuva de um verão.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Sobre a Saudade



A saudade é doída... É doida...
Essa saudade é um escândalo, um estrondo dentro de mim.
É um papôco na cabeça que me deixa tonta e me dificulta até respirar, de vez em quando.
Um abuso uma saudade dessas. Mil coisas pra fazer, e ela me impedindo até de pensar.
Se pelo menos teu cheiro sumisse da minha pele, se a tua voz abandonasse a mania de ecoar nos meus ouvidos, se teus beijos não me deixassem nos lábios esse gosto de ti que me alucina tanto...
Seria a saudade mais serena... Dava até pra suportar.
Mas ô, pequeno! Pra que judiar de mim, e deixar essa maldita me fazer flutuar de tanta lembrança?
Pra que tatuar esse apreço em mim, como uma insígnia de dor, que só serve pra me fazer morrer quando me recordo destes teus olhos de mel?
É de lágrima, é de sufôco o legado dessa amiúde e pungente saudade...
Mas é também de uma esperança irreprimível, de um amor digno, puro e sobretudo teimoso, que se faz permanente até no mais ignóbil silêncio.
Até nas menores sobras de presença...

Até na mais oca voz da solidão.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

A Fábula da Estrela


A menina, ao encontrar com uma estrela no céu:

- Que linda és! E tens tanta pressa! Para onde vais?!
- A lugar algum, só estou partindo...
- Ora, mas nunca vi. Estrela partindo? Estrelas ficam sempre no mesmo lugar! Pois diz-me então, aonde vais, agora que estás partindo?
- A lugar algum, já te disse. Procura pôr teus pés de volta no chão, e deixa-me!
- Ah, mas sonhar é bom! Tu, que tens um lindo lar, bem que podias fazer como eu, e viver a sonhar! Olha, é mais fácil que ter de se acostumar à dores medonhas de ter os pés no chão... E é tão simples... Não acredito que possa haver coisa melhor que isto. Mas diz-me. Já que não queres dizer para onde vais, onde estavas antes de partir?
- Menina, tu és ingênua ainda. Teu lar é tão lindo quanto julgas o meu... E é bom sonhar, eu sei bem... Fiz isso por milhões de anos, e levava também as pessoas a fazerem o mesmo quando me notavam daquele pontinho azul de onde viestes, e que chamas de Terra. Mas é preciso que desças para te acostumares a sonhar apenas para alegrar a vida, porque é na realidade que de fato vais construí-la e aproveitá-la.Os sonhos são bons, mas nos levam tão alto... E é tão perigoso, meu bem...
Antes de partir eu estava no lugar onde nasci e brilhei até alguns dias atrás... É isso...

- Besteira. Realidade cansa. E como dissestes, sou nova ainda. Tenho tempo de sobra para sonhar, e não preciso correr para construir nada, e fazer forças e tudo mais que não é melhor que o doce vôo do sonho. Quanto mais alto, mais livre me sinto! Não é maravilhoso?!
Mas não entendo o que te fez sair do lugar onde moravas! Não eras feliz? Que te faltava?

- É maravilhoso, mas é perigoso quando é demais, assim como fazes. E eu era feliz, sim. Só achava tudo muito distante. Mas não me importava, pois era admirada e isso sempre me bastou. Saí porque era a hora. Cumpri minha missão que era brilhar e brilhar e brilhar.

- Ah! Pois é a vida que sempre quis! Brilhar sem me preocupar com mais nada nem ninguém, e ser admirada sempre! Acho que minha missão é como a tua! É ser estrela a minha missão!

- Tua missão é ser menina. E depois jovem. E depois uma bela mulher. Mas tens de conviver entre os teus, tal qual fiz aqui entre minhas irmãs que são estrelas também. É por isso que deves cuidar de descer e fazer florescer tua vida. E não queira saber o quão obscura pode ser a vida de uma estrela...

- Muito obscura ... Não entendo... Mas as estrelas são tão claras! Ah! Então partistes porque não queres mais ser estrela! É isso!

- Ai, não me escutas. Parti porque chegou a hora de fazê-lo.

- És confusa estrelinha, não te entendo não. E é uma pressa tanta... E me dizes tantas coisas... E olha! Teu brilho está se apagando...

- Não sou confusa querida. É que teus olhos sonhadores não te permitem ver uma gota de realidade. Já que não ouviste uma palavra do que eu te disse, contemplas agora o que acontecerá contigo se não colocares os pés no chão. Se digo que não vou a lugar algum é porque minha missão está chegando ao fim. Viste que meu brilho está se apagando, e te admirastes antes porque sabias que estrelas não partem de seus lugares. Pois bem, realmente não parti. Estou caindo. E o ruim de ser estrela é que, depois de tanto brilho, nos acabamos sempre numa dura queda. Bem do alto me espatifarei nalgum lugar que desconheço. Continua onde estás e assistirás tudo.
Mas se é este o destino que queres, então voa... E não temas o quão violenta será a tua queda.


quinta-feira, 5 de julho de 2007

Sobre Alguém Que Não Vem




Sinto na pele o sopro leve e quente que me causa a tua lembrança...
E olho entusiasmada o tempo, o vento que inquieta as cortinas da janela,o solitário e urbano pássaro que, pousado num fio elétrico, parece tão entediado quanto os incógnitos passantes a cruzarem-se no vai-e-vem das ruas. Olho o torvelinho cotidiano formado em meu redor e tudo parece anunciar a tua chegada.
Como não soubesse a que atribuir tão suave e prazerosa ameaça, passo a ensimesmar-me. Assim, como alguém que quer acreditar em algo que não vê, e espera, mordendo os lábios e apertando os olhos, extrair do pensamento uma visão do que não está... Um espectro do que anseia ter em frente aos olhos.

Falo da busca acelerada e constante em mim por um sinal teu.

E essa angústia latejante, que num lusco-fusco clareia e enegrece minhas esperanças, fala já à minha consciência que a muito já se foi o momento de esperar por uma chegada tão irreal. Porque estás longe da maneira mais inextricável possível. Porque em teu coração pulsa, agradável e intimamente, um amor que não é meu.
E o puro amor que te enternece é o mesmo que esmaece as cores brilhantes do meu sonho... Esse que é te ver chegar aqui, eufórico, desmesurado... Com a boca cheia de ternuras e
indecências...

Mas não é meu esse amor.

Ainda que minha tola obstinação implore pelo contrário, a porta da minha casa não receberá nos trincos o impulso dos teus punhos ansiosos. Nem as colchas da minha cama revelarão os doces vestígios do teu cheiro na manhã seguinte...
Porque tudo que há em mim, o desejo, a esperança, a feliz temerosidade, são tudo ilusões.
Como quem mira nostálgico uma dileta estrela, e só porque ela está lá (e é tão linda!), ignora o próprio absurdo... E espera vê-la cair-lhe nas mãos.

segunda-feira, 2 de julho de 2007

A Descoberta


E foi no exato momento em que te vi:
entendi que minha vida havia definitivamente começado...
O tempo parou por alguns instantes (deve ter sido pra deletar tudo que havia acontecido antes...), e então, parada onde eu estava, comecei a sentir que nada mais seria igual... Meu corpo, minha alma, meu pensamento e minha vida inteira haviam sido tomados por uma loucura colorida, um deslumbre brusco e descontrolado que era provocado pelo brilho sereno do teu olhar.
Eu quis fugir, sim (E por querer tanto eu soube que realmente não queria...). Mas hoje é meu peito que cadencia descompassado de tão contente. E tudo é tão novo, tão belo que mais parece uma doce insanidade.
Não esperei te encontrar, não esperei que fosse tu... Não esperei que existisse quem eu tão subliminarmente esperava.
E por tanta surpresa, e por tanta sorte, é que digo hoje: não me falta mais nada, meu Amor! Que venha o acaso, esse tolo que acha que pode pôr a termo o que não acaba nunca, o que é infinito.
Meu mundo está completo. Meu ser está completo. Tanto que nem sei o que fui antes de tua chegada.
Os dias agora têm o sabor adocicado da tua voz e o vapor róseo da tua presença... E não preciso temer a solidão, a chuva, o desamparo...
Agora estás aqui, e o resto descabe em si, de tão pouco...

Dentro de mim ninguém foi tão imenso...
E jamais serei tão viva quanto sou em ti!

Eternos Instantes


Vago cada instante como se no infinito todos eles se precipitassem... Como se eternamente eu os vivesse e como se por isso mesmo eu não devesse me cansar deles... Vivo agora os momentos frios que me abordam e não me acrescentam quase nada. Antes, sim, houvera em mim uma busca mais forte por emoções mais fortes ainda. Agora não. Agora sobra aqui um marasmo... Um confuso desconsolo. Uma sobra do que não há. E também não sei por que as coisas mudam tão bruscamente dentro de mim. Por que vivo horas alucinantes, e por que as mesmas horas depois de mínimos dígitos de segundo passam a me entediar muito profundamente. Então fico assim... Pasmada, letárgica... Com esse olho q não vê e essa mão desmaiada debaixo do queixo. Assim, como quem espera adormecer estando insone, ou como quem se entrega às resignações de um dia perdido... Eu por enquanto não estou. Eu permaneço. Sôfrega, morrendo de pena de mim, quase, mas permaneço. Permaneço onde estou e sem querer sair. Permaneço sentindo, sem querer combater qualquer espasmo de dor, ou suspiro de impotência. Permaneço incógnita de mim... Mas não posso negar que continuo tranqüila. E não de uma maneira mórbida. Eu transpareço a tranqüilidade dos justos, a tranqüilidade dos sãos e dos que têm paz. Dá então pra sugerir que os instantes que não passam... Eles não destroem nada... Eles apenas machucam... E apesar de infinitos, no final de tudo eles são apenas instantes...
Porque inclusive eu, no fim de tudo, não passo de um instante...

Abismo ou Refúgio


Deixa os olhos teus
Lavarem o que resta
De dor nos cantos meus...
Deixa os olhos teus
Luz dos olhos meus
Luzirem desordenados sobre mim;
Mostra esses olhos claros
Pro meu mundo
E traz a eles um pingo
Um viés de ilusão
Que a beleza existe em tudo, tudo
E que olhos caros como os teus
São o abismo ou refúgio
De quem procura na vida
Um sinal, ainda que pálido
De um amor que se perdeu.

Tão Tua


Entre sonhos e lembranças,
Aqui estou...
Mesmo em tua ausência
Contento-me com o que restou;
Aquela luz tão linda do começo
Permanece ardendo e brilhando em mim,
Ainda sinto teu cheiro, ouço tua risada,
Mesmo depois do fim...
Respiro ainda o frescor da manhã
Do dia em que te vi,
E ao fechar os olhos, consigo enxergar
A calidez dos teus traços, tão perfeitos...
Ainda desejo teus beijos,
E sinto-me envolvida pelos braços teus...
É por não conseguir-me acostumar
Que sofro tanto...
Eu continuo me sentindo tão tua,
Assim como te sinto tão meu...

Para Uns Olhos


“E porque você é um menino que não pisca nunca, e seus olhos foram feitos na primeira noite da Criação. E você é capaz de ficar me olhando horas.” (Vinícius de Moraes - com adaptações)

E fico olhando pra ti... Pra esses olhos que foram feitos de faíscas do Big Bang, mas que aqui na Terra têm o dom de serenizar tudo que tocam.
Olho pra uns olhos que destituem a paz de dentro de mim. Que me fazem sentir intensamente viva e pulsante.
Olho pra uns olhos que me fazem arder a ponto de sublimar todo o meu corpo.
São uns olhos suaves... Daqueles que sabem fazer vazar parte dos pensamentos por suas órbitas pra nos desvirtuarem de qualquer coisa que possa nos distrair. E são doces, doces... Dois cálices de mel incrustados numa face de anjo. Adornados por esse sorriso de sol rasgando triunfante a madrugada, esse sorriso de lua clara crescente, reinando absoluto no infinito do cosmo.
Tens olhos compenetrados e um tanto tristes, mas meigos. De uma ternura demasiada e constante. Dos que conservam absoluta beleza até no cerrar das pálpebras...
São lindos demais os teus olhos!
E mirá-los, pra mim, que andava meio de lado das utopias da vida, é a redescoberta do mais inesperado sonho: o de poder sonhar sem temer. De poder me lançar do precipício e cair exata nos teus braços, inteira e totalmente entregue. E permitir ao meu coração que ele bata desenfreado o quanto quiser... O sonho de querer alguém a ponto de existir como se não houvesse caminhos pra seguir ou regressar.
A profundidade luminosa do teu olhar é a coisa mais simples e bela que já pude observar em anos. E o tempo inteiro do mundo se reverte em segundos quando a luz da tua íris límpida toca e se faz refletir na superfície da minha pupila maravilhada.
É como se não existisse mais nada ao redor... E continuarei a fitar teus olhos soberanos que brilham imóveis dentro de mim...
E a vida se abre numa imensidão tão infinita quanto esse brilho, quanto esse sentimento cego e louco, que agora me devasta para reconstruir, átomo por átomo, fibra por fibra, sonho por sonho, aquela que sou de verdade.

Aonde Vai Dar (O Teu Olhar)


Pra onde vai esse teu olhar rasgado,
Esse olhar parado,
Metido nesse vazio infinito...

Aonde vai dar esse olhar tão bonito,
Que mil vezes me tenta,
Mil vezes me mata,
E que pousa de leve, como suave pluma,
Dentro do mais profundo silêncio
De uma sinfonia de emoções...

Que se perde na imensidão dos teus porquês,
Só se encontrando talvez
Quando encontra algo mais preciso,
Quando esbarras no paraíso
Da luz dos olhos meus...

A Brisa


Deixa-me esgotar no teu corpo o peso dessa angústia que me esmaga por dentro. Eu preciso voar... Deita aqui, com esse teu corpo iluminado e de veludo, e me cobre como cobre a águia o seu ninho. E toca, calmamente, cuidadosamente, com tuas mãos firmes, todos os meus recôncavos. Conquista todos os territórios da pequena e pacata planície do meu corpo. Vem cá... Traz pra mim esse beijo alucinógeno que me alimenta a loucura de estar somente ao teu dispor. E pousa esses olhos de anjo caído em cima de mim, com toda piedosa malícia, despindo minha pele e vasculhando minha alma. Enternece meus dias com teu sorriso de menino, e acaricia meus ouvidos com o som mágico da tua gargalhada livre e clara. Faz-me chorar, amor! Deixa que minhas lágrimas lavem teu corpo... Eu quero, aos prantos, transbordar a alegria de te acolher em meus braços. Eu quero, eu preciso persistir dentro de ti, forte e serena... E inundar para sempre tua boca com as sílabas do meu nome. Ah, meu príncipe lindo... Eu quero teu coração atropelado, descompassado e tonto, de tanto me amar! Vem, amor, como um pássaro exausto e voltejante... E repousa em mim o teu cansaço. Vem, pra saber que sou eu a tua terra, sou eu a tua casa... E vem, pra saber que quantas vezes quiseres, e para onde fores, eu serei a brisa fresca e constante que acompanhará o teu vôo.