terça-feira, 17 de novembro de 2009

Desvairada (Música)


Um dos presentes mais lindos que ganhei este ano.
Música feita pra mim, por meu querido Tiago Quevedo, cuja amizade também foi um dos grandes presentes que ganhei... da vida.


Desvairada
(Tiago Quevedo/Daniel Mondego)

Esse som é meu refúgio
E as notas me inebriam
No olhar da contramão
Eu enfrento a multidão

Sou apenas existência
Um poema uma canção
Sou a arte em sua essência
E as vezes solidão

No meu modo eu resisti
Sou quem sou e o que vivi

Encantada como um anjo
Desvairada me arranjo
Mas nas notas do meu canto
Só eu sei o que senti

Enfrentando meus anseios
Relutei em prosseguir
Mas meu vôo é do meu jeito
E pressinto conseguir

Eu só acredito em mim
Desvairada sou assim...

E a todos que amam
Me julguem por quem sou
A liberdade nunca é em vão.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Les Ami



Quase me faz chorar
Muito da sua maneira:
Uma mistura de doce com amargo,
Colherzinha de café numa xícara de açúcar.

Pra casa volto sentindo o vento
Me batendo no rosto
Implorando pra que eu a esqueça,
Me alertando antes que eu enlouqueça;

É que ela é a mulher dos meus sonhos,
Em timbre, cor, tamanho e delicadeza.
E em minhas mãos ela encaixa tão bem,
Que chego a pensar serem só minhas
Todas as harmonias que ela sozinha detém;

E quando ela se vai,
Me deixando numa saudade eterna,
Buscando vestígios de seu cheiro,
Abraço a parte que dela me resta;

E fechando meus olhos acordado,
Cuidadosa, meiga, incerta...
Eu a posso ver clara,
Iluminando minha noite deserta.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Pueril

Imagens: Ionit Zilmerman.


Envelhecer?!
Mas quando??
Ainda que me esforçasse para tanto...
A gente não vive tempo suficiente
Neste mundo
Para deixarmos de ser crianças.


sábado, 31 de outubro de 2009

Coisas estranhas ao seu lado

Ilustração: Ionit Zilberman.


Eu sinto coisas estranhas por você. Nunca senti igual por ninguém, e por isso mesmo chamo de coisas estranhas.
Eu não te amo, definitivamente. Não imagino nossos sobrenomes misturados, filhos com você, nem qualquer vida possível ao seu lado. Nada disso. Não me interessa detalhes sua história, nem conhecer mais profundamente as pessoas que você é.
Mas você me dá coisas estranhas. Tipo vontades insanas, tipo correr perigo, fazer bobagem sabe? Você me causa esses troços todos. E me dá vontade de chorar quando simplesmente some, e de gritar quando, do nada, aparece. Eu não entendo.
Queria poder dizer claramente o que sinto e me libertar dessa mania infeliz que eu tenho de ser sempre tão comedida, e compassada, e cautelosa. Eu queria dizer assim, na tua cara, num desses momentos que a gente tivesse de bobeira, que você me desestrutura, rapaz.
É que toda vez depois de te ver eu fico rebobinando (porque eu sou do tempo das bobinas do vídeo-cassete) cada expressão, cada sorriso fácil seus, pra reviver aquilo que eu vivi ao seu lado, mas não estou afim de viver outra vez.
Sinto uma saudade fodida de você, mas não quero te ver nunca mais.
Porque do seu lado eu não sei quem sou. É isso. Eu queria dizer na tua cara, seu alienígena, que eu não quero mais saber de você, porque eu não consigo me reconhecer do seu lado, você me olha e eu me transformo numa criatura que nunca conheci antes, cheia de uma fragilidade irritante, como se você me quebrasse em pedacinhos e me juntasse com as partes todas fora do lugar e eu não soubesse o que fazer com elas.
E eu tenho medo de você e de tudo isso que ficar sob seu eixo me causa.
Nunca fui de me assustar com o que desconheço.
Mentira. Mentira deslavada, lorota boa essa minha. Eu sou mulher e trago o medo na bagagem do meu gênero, mas medo assim ainda não tinha sentido.
Não estou falando de medo terror não, é uma coisa muito mais sutil, como se fosse uma forma refinada de medo que, injetada na minha corrente sanguínea, me deixasse sempre num estado entre o surto e a tranquilidade. Constantemente em alerta, eu diria.
É que, eu não sei porque, mas com você eu sinto uma vontade incontrolável de viver tudo até o limite, do seu lado eu me sinto plenamente fora do juízo, fissurada nos segundos presentes, liberta dos acontecimentos ao redor.
E mais do que qualquer das outras, a coisa mais estranha que sinto é me satisfazer das lembranças de você... Só por não suportar o peso da felicidade quando estou ao seu lado.

Souminha

Ilustração:Ionit Zilberman.


Tudo o que não fazes - e fazes
que não dizes - e dizes
que não ligas - e ligas;
Tudo que escreves, que replicas...
Tudo que repetes, no fundo não passa
de reprodução famigerada
do que queres que em ti
se esgote.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Abre Aspas

Imagem: Ann Tarantino.



Escondi entre as flores
De papel-machê-manchadas,
Numa caixa de cetim vermelho,
Uma foto polaroid enevoada.

Teu sorriso amarelando,
Já meio roído de traças,
E no verso uma promessa
Que nunca vingou...

Entre os tons decadentes das flores
E a esperança empoeirada,
Te fazem companhia minha dor,
Suas traças...

E trancafiadas para sempre
Na mesma sangrenta caixa,
Todas cores que teu sorriso
Me levou.

sábado, 11 de julho de 2009

Súplica


Enfeita de dourado
O meu dedo,
Jura que é meu homem,

Que é sangue do meu sangue
Que é meu dono,
Que é feliz...

Mas não me prende assim,
Como se eu já não fosse mais
Parte de mim,

Não me rouba assim
De graça, nem de leve,
Não me tira de mim.

Me coloca no alto, no altar,
Num chão, sob um teto,
Sob o céu do teu olhar,

Mas não me nega nunca,
Por maior que seja
A força do teu afeto,

Esse poder
Que só você tem
De me libertar.

sábado, 13 de junho de 2009

Para que passes de mim



Para que passes de mim
E eu não tenha mais que lembrar
Da manhã que se levantava preguiçosa,
Cuidadosa, para não incomodar
A gente que se amava sem pressa
A gente que se enroscava sem nexo
Enquanto tudo fazia sentido...

Para eu não mais me valer de ti
Me dizendo suave
Que de nada adianta se ter juízo,
E escorregando solto pelo meu corpo
Feito água, feito fogo,
Me inundava, me queimava inteira...

Para que saias daqui,
E eu não tenha que imaginar
Nossos lábios famintos
Se buscando, se abrindo,
Se consumindo,
Em beijos tórridos e luminosos...

Nem me recordar,
Contente e louca,
Da maciez dos teus gestos,
Da doçura do teu corpo,
Da brancura do teu gosto...

Para que eu não passe os dias
A me situar no instante exato
Em que tuas mãos se confundiam
[Entre a malícia e a ternura,
O carinho e a maldade,
A candura e a sordidez],
Neste espaço pequeno que sou
E que tomaste, romântico e bruto,
Como terra nunca antes desvendada...

Para que eu não viva mais
Remoendo minha estupidez,
Me infiltrando pelas fendas
De cada minuto que voei
Entre teus braços...

É que te peço
Para que passes de mim
E leves contigo esta solidão.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Instante (música minha e de Rommel Ribeiro)



Vejo os instantes
Que se passam,
E eu aqui,
Parada, letárgica;
Com esse olho que não vê
E essa mão esquecida
Debaixo do queixo...
Aqui algo fundo
Pergunta por você...

E a espera densa,
Angústia intensa,
A esperança afogueada,
Em volta há menos que nada;
Uma sobra imensa
Do que não há...

Sinto que o instante
E toda espera
Não me leva a nada
Nada, nada, nada, nada, não!
Apenas ardem,
Como eu e você...

A gente já não passa
De um instante!

O Riso que Depõe a Força


Vem rir comigo o teu riso
Tilinta transparente o teu flutuar
Bate o vento em teus cabelos
E o cheiro que perfuma o ar
Faz minha alma mais leve...

Anjo feito homem
Lanças teu olhar fugidio
E tudo faz-se belo
E tudo clareia até brilhar!

Dá-me a seiva profana
Desta tua boca celestial
E faz-me beber até a última gota
Desta loucura
Que me traz tanta paz...

E me faz mansa, morna e tranquila
Que preciso descansar
Depois de tanta sorte!

Vem e silencia o grito abafado
Por amor
Que me estoura o peito,
E cala meu corpo com tuas mãos...

Vem rir comigo teu riso róseo
E me revela a face sublime
Desta paixão!

Ah, meu amor!
Afrouxa minhas pernas ansiosas
Devolve a ternura dos meus quadris...

Que já estou farta,
Já me sinto gasta,
Já estou torta
De tanta força bruta!