sábado, 11 de julho de 2009

Súplica


Enfeita de dourado
O meu dedo,
Jura que é meu homem,

Que é sangue do meu sangue
Que é meu dono,
Que é feliz...

Mas não me prende assim,
Como se eu já não fosse mais
Parte de mim,

Não me rouba assim
De graça, nem de leve,
Não me tira de mim.

Me coloca no alto, no altar,
Num chão, sob um teto,
Sob o céu do teu olhar,

Mas não me nega nunca,
Por maior que seja
A força do teu afeto,

Esse poder
Que só você tem
De me libertar.

sábado, 13 de junho de 2009

Para que passes de mim



Para que passes de mim
E eu não tenha mais que lembrar
Da manhã que se levantava preguiçosa,
Cuidadosa, para não incomodar
A gente que se amava sem pressa
A gente que se enroscava sem nexo
Enquanto tudo fazia sentido...

Para eu não mais me valer de ti
Me dizendo suave
Que de nada adianta se ter juízo,
E escorregando solto pelo meu corpo
Feito água, feito fogo,
Me inundava, me queimava inteira...

Para que saias daqui,
E eu não tenha que imaginar
Nossos lábios famintos
Se buscando, se abrindo,
Se consumindo,
Em beijos tórridos e luminosos...

Nem me recordar,
Contente e louca,
Da maciez dos teus gestos,
Da doçura do teu corpo,
Da brancura do teu gosto...

Para que eu não passe os dias
A me situar no instante exato
Em que tuas mãos se confundiam
[Entre a malícia e a ternura,
O carinho e a maldade,
A candura e a sordidez],
Neste espaço pequeno que sou
E que tomaste, romântico e bruto,
Como terra nunca antes desvendada...

Para que eu não viva mais
Remoendo minha estupidez,
Me infiltrando pelas fendas
De cada minuto que voei
Entre teus braços...

É que te peço
Para que passes de mim
E leves contigo esta solidão.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Instante (música minha e de Rommel Ribeiro)



Vejo os instantes
Que se passam,
E eu aqui,
Parada, letárgica;
Com esse olho que não vê
E essa mão esquecida
Debaixo do queixo...
Aqui algo fundo
Pergunta por você...

E a espera densa,
Angústia intensa,
A esperança afogueada,
Em volta há menos que nada;
Uma sobra imensa
Do que não há...

Sinto que o instante
E toda espera
Não me leva a nada
Nada, nada, nada, nada, não!
Apenas ardem,
Como eu e você...

A gente já não passa
De um instante!

O Riso que Depõe a Força


Vem rir comigo o teu riso
Tilinta transparente o teu flutuar
Bate o vento em teus cabelos
E o cheiro que perfuma o ar
Faz minha alma mais leve...

Anjo feito homem
Lanças teu olhar fugidio
E tudo faz-se belo
E tudo clareia até brilhar!

Dá-me a seiva profana
Desta tua boca celestial
E faz-me beber até a última gota
Desta loucura
Que me traz tanta paz...

E me faz mansa, morna e tranquila
Que preciso descansar
Depois de tanta sorte!

Vem e silencia o grito abafado
Por amor
Que me estoura o peito,
E cala meu corpo com tuas mãos...

Vem rir comigo teu riso róseo
E me revela a face sublime
Desta paixão!

Ah, meu amor!
Afrouxa minhas pernas ansiosas
Devolve a ternura dos meus quadris...

Que já estou farta,
Já me sinto gasta,
Já estou torta
De tanta força bruta!

Se Ele Voltar


Sei que vocês vão dizer
Que de tanto amar
Eu deixei de viver

Que a dor desse amor
Me roubou a razão
Que é pouco de mim
O que sobrou, desde então;

Sei que é loucura querer
Mas já me esquivei
E o destino não quis

Que longe desse amor
Eu fosse feliz
E agora o que resta
É somente aceitar;

Deixem que eu fuja de mim!
Se não, vou explodir
Vou gritar, vou morrer!

A saudade que dá
Não consigo conter
Aquele olhar levou
Toda a minha paz...

Ah! Mas se ele voltar
Pode o mundo ruir
Pode o céu se acabar

Me canso de sorrir
E até de cantar
Mas nunca
Me canso de perdoar!

O Grão de Nós


Há de existir algum lugar para nós.
Nalgum ponto perdido, em alguma amplidão sem rumo nem caminho conhecido, haverá o nosso lugar.
Nele florescerá o avesso de toda distância que nos massacrou. Serão suprimidos e varridos para quilômetros de nós todo abismo e toda perda. Não haverá mais dores nem desenlaces, nem saudades, nem solidões veladas. Apenas a luz viva dos nossos olhos a se fitarem, marcados de sonhos que renascerão intactos, como o Sol que após a tempestade emprenha a terra de vida e esperança.
E seremos eu e tu imensamente um só. Uma semente de felicidade adornada pelo brilho das estrelas, abraçada pelo infinito universo. E seremos nós um grão genuíno e imperturbável de paz imperando humilde no tão aterrorizante caos, ou no mais remoto nada...

Urgente



Se eu tiver de amar
Que seja agora!
Que seja enorme
E não triste como outrora

Que seja suave
Alegre e constante
Brisa fresca e verdejante
A rebuscar-me o rosto

Que seja urgente
Que seja supremo
Que seja sereno
Como um conto de verão

E que este amor
Ainda que não dure
Me marque e me fure
Bem forte e profundo

Que é também com a dor
Com a lágrima e o tremor
Que se faz de num só segundo
O maior amor do mundo!

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Exercício de Poesia com o João


Amigo é também pra essas coisas.
Fazendo poesia comigo pelo msn, às duas da manhã.
=]

depois eu cortei os pulsos
e bebi o sangue até a última gota
até ressucitar
das cinzas cor-de-sangue
até abrir as asas de mim novamente
e de mim saltar,
soltar um grito de gratidão por ainda estar respirando
e espiando o que eu deitei ao chão,
um pouco de corpo num copo de solidão,
beber beber até cair bêbada, maravilhada e tonta,
sentindo o oco de antes
preenchido de lágrimas, vísceras, sonhos e coração.

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cor da oração,
reza a lenda uma linda flor de pétala
sedenta de orvalho-lágrima
me deixou levar a última estação.
ela então me levou de volta ao chão,
e de lá eu me via alto, pois dos pés
da flor eu sugava a seiva
que me devolvia toda emoção,
noção do tempo nem tinha jardim,
nem de mim,
o sopro, o solo, a sola da terra
crispou o meu inicio de estiagem
mas fizesse vento, chuva ou sol,
sendo ela minha guia,
ainda assim eu seguia viagem.

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vi a gente,
vi a tua voz mudar de cor,
era outro tom
tinha mais sabor,
seria séria a lingua
que balbuciou um antigo carnaval
seria breve e à mingua
como os versos de um refrão,
seria quente e eterno
como a noite de um verão
e os que ainda não viram
verão e virão a ver
o dia depois do verão,
o que sobrar do chão
e o que não cair do céu...
até onde a vista couber de ilusão...
o resto será tudo desvãos.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Poema aos Olhos Daquele Menino



Os olhos daquele menino
Têm algo que é triste.
São dois bagos negros
Que bóiam no infinito.
São duas ônix perdidas
Na clareza pura
Daquele olhar tão bonito.

Os olhos daquele menino
Têm algo que é profundo...
Como se o tempo e as dimensões
Precipitassem em si mesmos
A desvalia dum amor perdido
E grandeza de todo amor do mundo.

E eu os sinto partindo e voltando
Ao porto da minha mente,
Como barquinhos cambaleantes,
Indo e vindo em focos lúcidos
Cada vez mais permanentes.

Aquele menino tem olhos de entardecer,
Olhos de verso triste
E de prosa descontinuada...
E tem ollhos de mistério,
Daqueles que dizem tudo em entrelinhas,
Mas fora delas não dizem nada.

E ele às vezes tem olhos de noite,
De lobo peregrino.
Olhos muito serenos, um tanto famintos,
E tão senhores de si,
Que se eu desconhecesse de quem são de fato
Jamais diria serem daquele menino.

Os olhos daquele menino
Têm algo que não se basta com nada.
E assim, tão sem se bastarem,
Destroem alegrias almejadas,
Pisam na paz conquistada,
Distorcem qualquer razão,
Brincam de sentir emoção,
E voltam-se
Tristes, serenos, amaros, profundos,
Aos movimentos dedilhados
Nas cordas daquele violão.

Aqueles olhos possuem
Algo que só existe
A sete alturas do céu
E a sete palmos da terra.

E desse luzir tão estranho
Procuro extrair poesia,
Embora haja em mim
Muito mais forte
Apenas o desejo e a sorte
De vê-lo iluminar só a mim, um dia.

Os olhos daquele menino desejo beijar.
Cuidadosamente acariciá-los fechados...
As pálpebras feito duas conchas cintilantes
Expostas à luz do luar.

E então,
Os olhos daquele menino
Têm algo que nostalgia...
E são lindos, e tão meigos,
Como estrelas matutinas
Enfeitando o céu do Sol.

Mas não são meus,
Tampouco de alguém.
E eu aqui,
Tonta, boba, magnetizada,
Me desfaço dentro em mim,
Tentando desvendar aquele olhar
E todas as suas metáforas,
E antíteses,
E sinestesias...

Talvez eu devesse apenas descrever
O quão pequenina continuaria a ser,
Se de repente,
Em meu destino,
Tão bruscos e belos,
Não houvessem aparecido
Os olhos daquele menino.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Legado



Nas ruas onde habitas
Não sobra nada
Tampouco a vida.
Não fica nada, apenas a ira
Amaciada e gasta
Dos teus sonhos mortos.
Não levas nada
Abandonas tudo pelo caminho.
Nem sequer lembranças
Guardarás de recordação.
Fica apenas o peito doído e seco,
Apenas a inglória e a escassa estória,
Somente o peso dum vazio sem cor nem memória,
Somente o teu legado de nãos.