sábado, 2 de agosto de 2008

Imagem: Google


olho por cima, por baixo, tá tudo errado, o certo é pelo meio.
foco num ponto qualquer de encontro, o bom é o oposto, o que não encosta, o bom é o outro.
vejo de lado, de banda, do avesso, de ponta a cabeça...
eu não mereço, só pode ser isso. ou desconheço.
ponto de vista, a tua razão, a de qualquer um, a de alguém.
eu não encontro argumento que me convença a ser igual a ninguém.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

A Falta e a Chuva


O tempo ia escorrendo pela janela. Dava pra escutar o som da chuva com o tato e o olfato. De dentro do quarto tudo parecia tão pequeno que ela se esforçava para fazer render o ar.
Eram os beijos dele que faltavam ali. A falta deles roubava o oxigênio ao redor. E não havia nenhuma maneira de se concentrar, de conseguir se transportar de volta àquele colo. A ausência daquele homem triturava sua carne, e ela sentia como se escondesse um multiprocessador ligado no estômago. Ninguém conseguiria se concentrar sentindo tanta dor.
Aquelas mãos haviam viciado sua pele, e ela queria que o toque indescritível dele funcionasse também na distância, como a chuva que caia e que ela sentia com pelo menos dois sentidos a mais que o necessário.
É que ele possuía uma fluidez que lhe havia desandado as bases, uma coisa que anulava nela a mínima chance de pensar em reagir. Era algo que a tomava por dentro e por fora, rica e inebriante substância que agora corria em suas veias, que entorpecia quando ele estava por perto e enlouquecia quando ele partia.
E era tudo tão simples, intenso, profundo, bonito e dolorido... Tão mágico e tão perigoso...
Era a presença e a permanência dele, mesmo depois de ir-se.
Era aquilo que ela desejava, com todas as forças, quase em súplica, quase a gritar, mas sabia não ser sem consequências, e nem por isso desejava menos.
Aquele homem, a maneira incomparável dele de existir tão lindamente, irredutivelmente perfeito e tão superior a ela, que ali estava com frio e em vazia solidão.
Mas ela sabia. E olhava pra fora, para o sol que ia tímidamente alongando os raios por entre as nuvens ainda carregadas... E sentindo o cheiro terroso que se dissipava no ar que lhe restava ela lembrava, não sem tristeza, que toda dor provocada por uma paixão era assim... Forte, intensa, destruidora, insana e breve, como a
chuva de um verão.


Trouxe muita bagagem comigo.
Será longa a viagem que farei
Para bem longe do meu umbigo.

Eco


para viver
cortar as amarras
serrar os grilhões
para amar
romper com estradas
não controlar furacões
o pouco que se leva do mundo
é o eco provocado pela vida e pelo amor
em nosso baú de emoções.



quarta-feira, 21 de maio de 2008

Auto-Flagelação


Agora?
Não sei... Parece que sim...
Tudo muito confuso
Me perco em mim
Era para eu ter qualquer resposta
Mas só tenho todas as perguntas...
Ainda seria fácil se eu
Fosse mais fluida - menos densa
Mais volátil - menos bruta
Conseguiria pôr aqui
Tudo que sinto
Mas, não sei se por preguiça
Ou incapacidade mesmo
Não consigo...
E já fui melhor até
Tudo que dói tento expurgar
Pelas palavras
Mas a dor me deixa burra
E o medo me faz fraca...
Perdida, densa e bruta
Burra e fraca
Cada texto meu é uma violência
Que cometo contra mim
No anseio desesperado
De tentar me aliviar.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Disparos Contra a Noite (A Queima Roupa)




Disparo idéias obtusas
Contra a cabeça da noite
Em meu desvairado coração
Não cabe mais tantas dúvidas...
O silêncio dos teus gestos
Recolheu em mim o último grito
De socorro que restava...
Sobrou-me agora a frouxidão
Destas mão cansadas
De tentarem te alcançar...
Sobrou agora o calor bufante
Desta noite
E ele não me livra do frio
Que o vazio de não te encontrar
Me traz...
[E tem um mistério
Um rebuliço de horas
E umas palpitações infartantes...]
A tua falta me desgasta
E me arrasta pela piçarra dos dias,
Me despindo dos sonhos
E da própria pele.
Disparo balas na boca
Desta noite de angústia
E elas soam abafadas
E elas não abrem feridas...
Porque são feitas
Para atingir sem matar
Porque são feitas de saudade...
E saudade não mata ninguém
A queima roupa.

domingo, 23 de dezembro de 2007


... Mas é que eu sou uma menina de olhos vivos e coração aflito.
É que eu sou uma menina quase velha de tanta esperança...
É que sou também irreprimível, incontrolável, deslumbrada fugitiva da própria consciência.

Incontestavelmente, um caso perdido.

Mas posso ser compreendida. Um só olhar me abrange inteira.
O que eu não posso - e isso até já tentei - é ser desvendada.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Sábio Animal




É claro que sou um pouco imoral
Não declaro respeito e nem sequer
Sei se os termos banais em minha vida
Dizem o que realmente se quer.
Sabemos, porém, que o absurdo é um tanto normal
Como também as despedidas e beijos
E o retorno ao pálido desejo
Em espantos de amor
Rebeldia
E medo.
Mas,
Ao trazer
E repetir a esmo
O cálido e prático respeito
É que são reveladas as deixas
De um mágico, místico e sábio Animal.
É claro que naquele instante
Tudo que é trágico se desfaz
Nasce o prazer, a honra, a paz
E viver é absolutamente normal.


*Para meu querido amigo, companheiro constante de sonecas e divagações no colegial, e grande poeta, Thales de Sousa.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Sobre a Saudade



A saudade é doída... É doida...
Essa saudade é um escândalo, um estrondo dentro de mim.
É um papôco na cabeça que me deixa tonta e me dificulta até respirar, de vez em quando.
Um abuso uma saudade dessas. Mil coisas pra fazer, e ela me impedindo até de pensar.
Se pelo menos teu cheiro sumisse da minha pele, se a tua voz abandonasse a mania de ecoar nos meus ouvidos, se teus beijos não me deixassem nos lábios esse gosto de ti que me alucina tanto...
Seria a saudade mais serena... Dava até pra suportar.
Mas ô, pequeno! Pra que judiar de mim, e deixar essa maldita me fazer flutuar de tanta lembrança?
Pra que tatuar esse apreço em mim, como uma insígnia de dor, que só serve pra me fazer morrer quando me recordo destes teus olhos de mel?
É de lágrima, é de sufôco o legado dessa amiúde e pungente saudade...
Mas é também de uma esperança irreprimível, de um amor digno, puro e sobretudo teimoso, que se faz permanente até no mais ignóbil silêncio.
Até nas menores sobras de presença...

Até na mais oca voz da solidão.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

A Fábula da Estrela


A menina, ao encontrar com uma estrela no céu:

- Que linda és! E tens tanta pressa! Para onde vais?!
- A lugar algum, só estou partindo...
- Ora, mas nunca vi. Estrela partindo? Estrelas ficam sempre no mesmo lugar! Pois diz-me então, aonde vais, agora que estás partindo?
- A lugar algum, já te disse. Procura pôr teus pés de volta no chão, e deixa-me!
- Ah, mas sonhar é bom! Tu, que tens um lindo lar, bem que podias fazer como eu, e viver a sonhar! Olha, é mais fácil que ter de se acostumar à dores medonhas de ter os pés no chão... E é tão simples... Não acredito que possa haver coisa melhor que isto. Mas diz-me. Já que não queres dizer para onde vais, onde estavas antes de partir?
- Menina, tu és ingênua ainda. Teu lar é tão lindo quanto julgas o meu... E é bom sonhar, eu sei bem... Fiz isso por milhões de anos, e levava também as pessoas a fazerem o mesmo quando me notavam daquele pontinho azul de onde viestes, e que chamas de Terra. Mas é preciso que desças para te acostumares a sonhar apenas para alegrar a vida, porque é na realidade que de fato vais construí-la e aproveitá-la.Os sonhos são bons, mas nos levam tão alto... E é tão perigoso, meu bem...
Antes de partir eu estava no lugar onde nasci e brilhei até alguns dias atrás... É isso...

- Besteira. Realidade cansa. E como dissestes, sou nova ainda. Tenho tempo de sobra para sonhar, e não preciso correr para construir nada, e fazer forças e tudo mais que não é melhor que o doce vôo do sonho. Quanto mais alto, mais livre me sinto! Não é maravilhoso?!
Mas não entendo o que te fez sair do lugar onde moravas! Não eras feliz? Que te faltava?

- É maravilhoso, mas é perigoso quando é demais, assim como fazes. E eu era feliz, sim. Só achava tudo muito distante. Mas não me importava, pois era admirada e isso sempre me bastou. Saí porque era a hora. Cumpri minha missão que era brilhar e brilhar e brilhar.

- Ah! Pois é a vida que sempre quis! Brilhar sem me preocupar com mais nada nem ninguém, e ser admirada sempre! Acho que minha missão é como a tua! É ser estrela a minha missão!

- Tua missão é ser menina. E depois jovem. E depois uma bela mulher. Mas tens de conviver entre os teus, tal qual fiz aqui entre minhas irmãs que são estrelas também. É por isso que deves cuidar de descer e fazer florescer tua vida. E não queira saber o quão obscura pode ser a vida de uma estrela...

- Muito obscura ... Não entendo... Mas as estrelas são tão claras! Ah! Então partistes porque não queres mais ser estrela! É isso!

- Ai, não me escutas. Parti porque chegou a hora de fazê-lo.

- És confusa estrelinha, não te entendo não. E é uma pressa tanta... E me dizes tantas coisas... E olha! Teu brilho está se apagando...

- Não sou confusa querida. É que teus olhos sonhadores não te permitem ver uma gota de realidade. Já que não ouviste uma palavra do que eu te disse, contemplas agora o que acontecerá contigo se não colocares os pés no chão. Se digo que não vou a lugar algum é porque minha missão está chegando ao fim. Viste que meu brilho está se apagando, e te admirastes antes porque sabias que estrelas não partem de seus lugares. Pois bem, realmente não parti. Estou caindo. E o ruim de ser estrela é que, depois de tanto brilho, nos acabamos sempre numa dura queda. Bem do alto me espatifarei nalgum lugar que desconheço. Continua onde estás e assistirás tudo.
Mas se é este o destino que queres, então voa... E não temas o quão violenta será a tua queda.